Nº 13 - Brasília, 30 de março de 2007
 

ENTREVISTA - LUITGARDE OLIVEIRA CAVALCANTI BARROS
Ação afirmativa do profundo racismo

Por Aline Pereira
ADUR Informa

Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros é antropóloga, Mestre e Doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1997 e 1980), e pós-doutora em Antropologia pela UNICAMP (1999). Foi professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) até se aposetador na Instituição. Em 1983, passou em concurso público para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde leciona. Atualmente, coordena o Laboratório de Dinâmicas Societárias da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e se mantém fiel defensora de um ensino público de qualidade.

No momento em que o 26º Congresso do ANDES-SN aprovou que o Sindicato Nacional não deve se posicionar de forma favorável à política de cotas, e que a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro se propôs a discutir o assunto com a comunidade, entrevistamos a Profa. Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros. A breve conversa foi gravada em Campina Grande (PB), durante o evento do ANDES-SN, onde a docente deixou claro porque não se deve aprovar as políticas de ações afirmativas criadas pelo governo FHC, que têm sido levadas adiante pelo governo Lula da Silva.

Segundo a Profa. Luitgarde Barros, as políticas de ações afirmativas, que hoje se manifestam pela proposta do governo em promover cotas para negros e estudantes de escolas públicas nas Universidades, é fruto de uma perversa estrutura internacional de dominação dos povos. A docente, que há décadas participa da luta em defesa do ensino público de excelência, revela seu descontentamento com a reserva de vagas para cotistas nas Universidades, o que afirma ser “a ação afirmativa do profundo racismo”. 

Como a senhora entende as políticas de ações afirmativas hoje, frente à realidade do ensino brasileiro?

Profa. Luitgarde: Fiquei sabendo das ações afirmativas como política do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, que fazem uma cobrança extorsiva e monstruosa da dívida externa na América Latina. É uma profunda violência. Os governantes da América Latina são os cobradores, os feitores da senzala que açoitam o povo de seu país. Tirando-lhe o sangue, e convertido em dinheiro para pagar a dívida externa. Isso até recebeu o nome sofisticado de superávit primário. Foi retirado tudo da América Latina, em um projeto absolutamente criminoso. No Brasil, o próprio governo desrespeita a Constituição. O documento é claro: verba rubricada, verba carimbada não pode ser desviada. Saúde e educação são prioridades, com destinação específica. Então, o governo cria uma palavra, que é contingenciamento, para não responder ao crime de desrespeito à Constituição. A dívida que pagamos é inominável; somos extorquidos, principalmente no que se refere à saúde e à educação. Então, o FMI e o Banco Mundial, quando viram as destruições da América Latina, tiveram medo do levante dos miseráveis. Como é que os miseráveis se levantariam? Foi então que o FMI e o Banco Mundial apresentaram as políticas compensatórias, de ações afirmativas, que se inserem nesse contexto de destruição do ensino público. A pobreza está crescendo, as crianças não têm escola e os professores estão tão destruídos que, no caso do Rio de Janeiro, chegam a ter 900 alunos por ano. Como você imagina uma criança com apenas três horas de aula, tendo os pais fora de casa, fazendo biscate? Estão entregues a quem? Aprendem com a educação que os políticos dão, de cinismo, de impunidade. Com a educação que a televisão dá, de violência, de “enlatados”. As políticas compensatórias do governo aprofundam isso, pretendendo dividir a força desses miseráveis. Neste contexto, surgiram as propostas de cotas para pobres e para negros, como compensação por toda a miséria de uma vida. Sou contra essa compensação, porque isso não existe. Não adianta que mil negros entrem por ano, pelas cotas, nas Universidades, se o governo não olhar para a escola pública, que está abandonada. O governo está produzindo milhões de miseráreis que são incapazes de passar no vestibular. Fico pensando como Martin Luther King veria a Sra. Condolezza Rice se juntando às fábricas de armas, aos donos do petróleo, para assaltar povos, tomando-lhes a riqueza. As ações afirmativas consistem, então, em destacar pobres e negros em meio a sua população imensa, de milhões, e botá-los na faculdade como se isso fosse compensar, através de algumas centenas de universidades, as milhares de crianças e adolescentes massacrados por diplomas de escolas fundamentais e secundárias públicas, onde eles não tiveram aulas de português, matemática, física, química e biologia porque só no Estado do Rio há um déficit de 25mil professores.

Um dos argumentos em defesa da política de ações afirmativas é o de que é preciso formar uma elite negra de lideranças intelectuais.

Profa. Luitgarde:
Uma elite negra para quê e para quem? O que Condolezza Rice e Colin Powell têm a ver com Martin Luther King? O que os dois primeiros fizeram em favor dos milhares de negros destruídos no ultimo desastre em Nova Orleans? O que eles fazem pelos negros dos guetos americanos? O que isso afirmou para os negros americanos? Em vez de se criar essa elite, tem que se pensar na política educacional como um todo, investindo na escola pública. As crianças e adolescentes, em todo o mundo civilizado, permanecem nas escolas em tempo integral, sob a supervisão dos educadores, que lhes ensinam a gostar de seu país, a ter orgulho de sua pátria e de sua história. Eles têm livros, alimentação e são tratados como gente. Certos políticos brasileiros, verdadeiros monstros, fazem escola de apenas três ou quatro horas diárias, de baixíssima qualidade. Temos escolas feias, horrorosas. Um professor de formação superior ganha R$480 por mês, podendo chegar a R$600 se tiver uns “penduricalhos” (produtividade, sala de aula). E, como é preciso complementar o salário, esse professor que ganha mal pega outras turmas para dar aula. Há casos de professores com 22 turmas de 45 alunos cada. Ele não tem tempo de ler, de aprimorar-se na profissão. É trabalho escravo! Benedita da Silva, quando à frente do governo do Estado do Rio de Janeiro, não pagou o 13º salário dos professores. Muitos venderam seus bens para ter algum dinheiro, para poder comer nos meses de janeiro e fevereiro! Então, que condição um aluno cotista – que, na escola, não teve aulas de física, química, biologia – tem de chegar à faculdade de Medicina, por exemplo, para aprender fisiologia? Isso é loucura! Em segundo lugar: o aluno cotista ganha um ano de bolsa, de R$190 por mês, mas o banco já lhe tira R$10 para administrar essa “fortuna”. Quem pode se manter na Universidade com R$180 por mês? Como uma pessoa que mora no subúrbio pode pagar uma passagem cara como temos no Rio de Janeiro para chegar à Universidade? Outro dia, publiquei um artigo no Jornal do Brasil, contando um caso que aconteceu: estava dando uma aula, às 21h. Deixei os alunos fazendo prova. Havia um tumulto no corredor e, quando vi, havia uma menina desmaiada, rodeada de gente. Como sou fisioterapeuta [Além do bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais (1968), Luitgarde Barros também é graduada em Fisioterapia pela Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro (1966)], procurei atendê-la. A menina havia feito apenas uma refeição naquele dia: comeu um salgadinho com refresco, às 9h da manhã, na Central do Brasil. A UERJ, por exemplo, não tem bebedouro. Quem não tiver dinheiro para comprar água mineral, não bebe. Os alunos não têm dinheiro para fazer xerox, comprar livros. Depois de um ano, esse dinheiro (R$180) é tirado deles e os alunos ficam sem poder ir para a faculdade, pois não têm quem lhes pague a passagem e banque outras despesas. Então, que absurdo é esse de chamar de ações afirmativas o massacre que se faz a um homem pela segunda vez? Você o destrói ainda no ensino médio e depois quer colocá-lo na Universidade reconhecendo que ele não tem a capacidade de responder uma prova de Vestibular. Os políticos querem que sejamos todos analfabetos, compradores das idéias que eles mandarem. O Brasil voltou à condição de colônia. Os políticos das ações afirmativas ganham muito para nos transformar em negros de senzala. É afirmação do poder político a serviço da dominação, da destruição do povo.

A Universidade não se resume à sala de aula.

Profa. Luitgarde:
Na UERJ, vejo a reclamação dos cotistas. Fui à Sub-Reitoria de Pós-graduação, para dizer o seguinte: pelas leis do CNPq, você tem que ter o coeficiente de rendimento de no mínimo sete para receber uma bolsa de iniciação cientifica. Tem alunos que são reprovados em uma disciplina, têm baixo coeficiente de rendimento etc. Disse ao sub-reitor que sou contra a entrada desses alunos na Universidade, desta forma. Sou contra o contrabando desses estudantes, que não têm capacidade de responder um Vestibular, porque destruíram toda a escola pública do povo brasileiro. Mas, já que eles arrombaram a porta e colocaram na Universidade pessoas que não estavam com a formação necessária para enfrentarem o mundo acadêmico, acho que eles têm que mudar o resto da regra. Os alunos cotistas têm que ganhar bolsa de pesquisador, têm que aprender a fazer pesquisa e não podem estar limitados à questão da média. O aluno cotista não pode sair da faculdade com a frustração do diploma acadêmico, igual ao do falso diploma da formação do primeiro e do segundo grau. Não podemos permitir que os políticos corruptos e entreguistas destruam a Universidade, como fizeram com o ensino médio. A luta é pela reconstrução do ensino médio universal, com um salário digno para os professores, com no máximo cinco turmas, considerando que isso represente cerca de 200 alunos para o docente. Além de 200 alunos, nenhum professor consegue ensinar. E ainda tem uma segunda forma de banditismo dos administradores da educação, que começou com o Sr. Darcy Ribeiro. Para mandar estatísticas para a Unesco, tentando demonstrar a não evasão e a não reprovação, determinou-se que o aluno não tem que aprender para passar; o professor é obrigado a aprová-lo. Isso é criminoso. Onde já se viu alguém estudar se não for submetido a um exame? Onde você viu professor escravizado preparar alguma coisa? Enquanto um aluno rico fica no São Bento, estudando das 8h às 17h, tendo que manter a nota, já que para a classe dominante é importante ter boa formação – condição para o acesso às boas universidades – nossos políticos são tão ruins que obrigam os professores a aprovar seus alunos por decreto. Então, o aluno sabe que não tem que estudar porque vai passar de ano de qualquer forma, não tem quem ponha ele para estudar em casa, e, por isso, ele passa horas diárias em frente à televisão. Seus professores são: os traficantes e a televisão, que difundem a violência. Com os políticos, eles também aprendem que não serão punidos. Qual a ação afirmativa que existe na cota? É a ação que afirma a submissão dos políticos do nosso país aos projetos intervencionistas, que destroem o nosso povo para que sejamos apenas plantadores de laranjas e soja para exportação.

Algumas pessoas que defendem as cotas afirmam que aqueles que se posicionam contrariamente a essa política são racistas. O que pensa sobre isso? 

Profa. Luitgarde:
Tem racismo pior do que você dizer: “esse neguinho não sabe de nada. Entra sem vestibular.”? A cota seleciona um pequeno grupo, que com muita dificuldade conseguiu chegar ao pré-vestibular, empurrado de um ano para outro sem a exigência do conhecimento. Depois, a cota enfia esse aluno dentro da Universidade sem lhe dar condições de suprir a deficiência que lhe foi imposta no ensino médio. O governo tem que contratar o dobro dos professores universitários, para que eles fiquem em sala de aula, mas para que também ensinem a esses alunos como realizar pesquisa, como redigir relatório, produzir texto. Os alunos tinham que ficar nas bibliotecas, ter livros. Isso sim é ação afirmativa, mesmo só para esse pouquinho. Agora, escolhe-se um grupo para dividir o resto, que fica auto-responsável pela sua própria miséria. É como se a responsabilidade não fosse mais do governo, que acabou com a escola pública. Então, eu não sou contra as cotas; sou a favor de uma escola pública que “desnecessite” de cota, porque prepara o aluno para chegar ao ensino técnico ou universitário. O povo brasileiro tem o direito às mesmas condições de ensino; o pobre tem que poder competir com aquele da mais alta classe. Isso é democracia, é valorizar as pessoas que nasceram neste país, independentemente de cor e posição social. Para isso, tem que haver dignidade para professor do ensino médio. Você acha que o professor que tem que dar aula, preencher currículo lattes, correr atrás de produtividade, vai ter tempo de ensinar ao aluno cotista como se prepara um relatório? A deficiência desses alunos é muito grande! É preciso lhes dar tudo o que a escola fundamental e secundária não deu: aulas de português, história etc. Ensiná-los, inclusive, a comer, pois eles não sabem nem fazer as escolhas mais nutritivas: tem cotista que entra na UERJ e não toma leite, não come legumes, não come feijão. Só quer saber de cachorro-quente e hambúrguer. Seu grande sonho é um lanche do McDonald’s. Temos que reeducá-los em muitos aspectos. E qual é o professor que vai fazer isso? Em qual horário? Tem muitos cotistas se queixando de professores que assinam como orientadores, mas que, na verdade, quer que eles façam o serviço de banco, atendam telefonemas, digitem o trabalho desses professores etc. Queremos igualar as crianças do país, independentemente da cor. Que todas tenham o mesmo nível de capacidade, porque em nenhum país do planeta todos entram nas universidades. Os melhores alunos, aqueles que têm o gosto pela universidade, não precisam fazer o vestibular. É o vestibular de uma vida, daqueles que têm as melhores notas ao longo de toda a sua vida escolar! Aqueles que não atingem a média para freqüentar a Universidade vão para os cursos técnicos de excelência. A luta tem que ser também para que não haja defasagem tão aberrante entre os salários. A luta do intelectual é para que exista capacitação para todo o povo brasileiro pensar, agir e produzir. Todos devem ter um salário digno, como fruto da profissão que exercem, tenha o trabalhador curso universitário ou não. Não se pode dizer que uma pessoa com o diploma universitário vai melhorar de vida, sem ter as reais chances de competir nos concursos públicos e nas seleções do setor privado. E por que essas pessoas não podem competir? Porque foram destruídas nos cursos de primeiro e segundo graus, passando pela Universidade “de faz de conta”. Justamente porque me posiciono contrariamente à política de cotas, os alunos cotistas, quando entraram na UERJ, me chamavam de racista. Hoje, eles falam: a senhora está entre os professores que nos obrigam a corrigir nossos textos, nos ensinam a escrever. Recebo os meus alunos cotistas em casa aos finais de semana, pois não há como fazer isso de segunda a sexta. Disponibilizo o computador da minha sala na UERJ e o da minha casa para eles. Vou com esses estudantes à Biblioteca Nacional e outros centros de pesquisa. Uma aluna cotista me disse que todas as vezes que entrava na BN era observada. Pensava que isso lhe acontecia porque ela é negra. Eu afirmei que era porque ela não pode entrar na Biblioteca Nacional fazendo barulho com os sapatos, que era porque ela não mantinha uma postura silenciosa naquele espaço de leitura e pesquisa. Esse tipo de comportamento, contudo, não ocorre somente com os alunos cotistas, pois a juventude atual é deseducada pela televisão, quanto aos espaços de silêncio e de reflexão. Então, continuo afirmando que não entendo como alguém pode chamar cota de ação afirmativa: é a ação afirmativa do profundo racismo porque ao reconhecer que não deu a esse aluno a condição de fazer um exame vestibular, faz com que ele entre na Universidade desta forma criminosa, como alguém que não pode enfrentar uma prova que teste o conhecimento que lhe deveria ter sido dado nos primeiros níveis do processo educativo. Por que não se exigir a suspensão do superávit primário, obrigando as autoridades a investirem esse dinheiro em saúde, saneamento básico e educação? Estados e municípios têm de triplicar o número de professores, passar as escolas para tempo integral e pagar a cada professor, pelo menos o que pagam os assessores e servidores de café nos gabinetes de juízes, em vez de miseráveis R$480. Afinal de contas, professor de ensino fundamental e do secundário é obrigado a ter nível superior. Com excelência desses dois níveis de formação educacional, está garantido o acesso democrático à Universidade. E quanto maior o número de pessoas de todas as cores, homens e mulheres, aptas para o estudo universitário, maior será a luta pela ampliação de vagas na Universidade pública.

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