PERDA IRRECUPERÁVEL Por Tadeu Meyer Delta era professora do Colégio Agrícola de Camboriú desde 1995, onde lecionava História para os alunos do ensino médio. Na universidade, deixou a marca de pesquisadora ligada afetivamente ao povo de onde veio. Estudou os hábitos, ritos e tradições da sua aldeia de origem e defendeu, no dia 28 de março de 2001, a dissertação “Os wapixana da Serra da Moça: entre o uso e o desuso das práticas cotidianas (1930/1990)”. Delta Maria foi a primeira indígena a concluir o mestrado na UFSC e em Santa Catarina. “É uma pessoa singular, como ela não havia outra”. Expressões como essas são recorrentes quando a professora Ana Lúcia Nötzold, coordenadora do Laboratório de História Indígena da UFSC (Labhin), fala da mulher com quem conviveu por nove anos e que orientou no mestrado e no doutorado inacabado no Programa de Pós-graduação em História. Entre a aldeia wapixana da Serra da Moça, em Roraima, onde nasceu e começou a estudar, até os bancos da pós-graduação em história da UFSC, Delta traçou uma trajetória incomum. Discreta, como ela sempre preferiu, mas de muita força e determinação, terminou a quarta série e deixou a aldeia aos 15 anos para continuar estudando. Foi para Boa Vista, capital do Estado, onde fez o ensino médio, magistério e se graduou em História em 1992, pela Universidade Federal de Roraima. O trabalho como professora começou antes, em 1986, na Escola Maria das Neves Rezende, onde dava aulas para crianças dos primeiros anos do ensino fundamental. Para qualquer brasileiro que nasce na cidade com acesso facilitado à informação e às escolas, o título de doutor é um sonho distante. Para uma indígena nascida no meio da floresta, seria impossível. Quando entrou na sala de cirurgia, no dia 27 de setembro de 2006, Delta estava na metade do doutorado, previsto para ser defendido no fim de 2008. Havia concluído as disciplinas do primeiro ano e feito parte da pesquisa de campo, na sua aldeia, em Roraima. A vida longe da tribo de origem não a fez, em nenhum momento, esquecer o lugar de onde saiu e a condição de indígena. Segundo a professora Ana Lúcia, Delta sempre fez questão de deixar clara a diferença que havia entre ela e as colegas não-indígenas do Labhin. Delta costumava mostras a diferença comparando as preocupações que cada uma tinha quando deitava pra dormir. “Eu penso se no dia seguinte meu povo vai ter peixe, vai ter alimento. Vocês, se vão ter dinheiro pra pagar as contas”. “Mas eu sempre a vi como uma acadêmica capaz, uma profissional gabaritada”, enfatiza a professora Ana Lúcia. A diferença que ela fazia questão de preservar nunca serviu para que ela tivesse privilégios. Ao fazer a prova para o mestrado, Delta não quis que o idioma wapixana, que seria usado nas pesquisas junto à sua tribo, fosse considerado como segunda língua. Aprendeu espanhol para fazer a prova. “Ela nunca quis tratamento especial, dizia que tinha que entrar como todos os outros, pela porta da frente”, lembra Ana Lúcia. Presentes - A sala do Labhin é repleta de objetos, brinquedos e artefatos de várias povos - Yanomâmi, Ingaricó, Wai-wai, Macuxi e Wapixana. A maioria dos objetos que enfeitam paredes, prateleiras e mesas vem de Roraima, das mãos de povos que vivem a mais de cinco mil quilômetros de Florianópolis. Quem os trazia como presente para o laboratório a cada vez que voltava a Roraima era a índia Delta Wapixana, seu nome original. Os presentes de Delta marcam também o primeiro encontro com a coordenadora do Labhin. A professora Ana Lúcia conta que uma mulher que procurava por ela deixou na portaria do CFH um saco de lixo preto cheio, mas mesmo assim muito leve. Eram os primeiros objetos indígenas presenteados por Delta, que apareceu no dia seguinte. Queria informações sobre como entrar no programa de mestrado em história. “O laboratório é a história da Delta”, diz Ana Lúcia apontando para as paredes. A família da professora Delta Maria de Souza Maia, morta na mesa de operação em 27 de setembro do ano passado, tem recebido várias manifestações de solidariedade de ministérios, organizações nacionais e internacionais. A ministra Matilde Ribeiro, que comanda a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, entrou em contato por telefone com o marido de Delta, Aristides Maia, para informar que acompanha o caso e manifestar apoio na elucidação do caso. As investigações, que estão em fase de conclusão, trabalham com a hipótese de homicídio. Assessores de Matilde estão em contato com a assessoria jurídica da Apufsc e com Aristides, que é associado ao sindicato, assim como sua esposa. Representantes dos Povos Indígenas das Américas, reunidos em Washington, nos Estados Unidos, para reunião em que negociavam direitos indígenas, enviaram pedido de apuração do caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e às autoridades judiciárias brasileiras. Subscrevem a “Carta Aberta” representantes de indígenas de todas as regiões da América - Estados Unidos, Costa Rica, Guatemala, Bolívia, Colômbia, Chile etc. Diversas organizações e autoridades também enviaram manifestações por escrito. A Diocese de Roraima, através das Pastorais Sociais, exige “a plena apuração dos fatos e a devida punição” do culpado pela morte de Delta. Na mesma linha, contra a impunidade, se posicionam o Conselho Indígena, a Organização dos Indígenas da Cidade (Odic) e a Associação dos Povos Indígenas - todos de Roraima. No Colégio Agrícola, onde Delta dava aulas, um abaixo-assinado pedindo justiça foi subscrito por mais de 59 pessoas. De Lages, o apoio veio da Uniplac, através do grupo “Negro e Educação”. |