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ENTREVISTA - DIDIER DOMINIQUE
"As forças da ONU sob o comando brasileiro estão no Haiti para manter a paz para o projeto burguês"
Por Elizângela Araújo e Luciana Araújo/SINTRAJUD São Paulo
Edição: Elizângela Araújo
O professor universitário Didier Dominique, representante da Batay Ouvriye (Batalha Operária no idioma creole) e de movimentos sociais do Haiti, esteve no Brasil, em março, para denunciar as condições subumanas em que vive a grande maioria da população de seu país. Acompanhado da colega Rachel Beavoir, Dominique visitou vários estados brasileiros, participando de eventos organizados pela campanha Jubileu Sul, onde denunciou que a missão de paz da ONU nada mais é do que um instrumento de repressão “a serviço do projeto burguês de exploração da mão-de-obra mais barata do mundo”. Segundo ele, as tropas estão promovendo um verdadeiro massacre de civis no país. O Informandes Online o entrevistou no dia 25 de março, durante o Encontro Nacional em São Paulo, do qual Dominique participou.
- Qual o motivo de sua visita ao Brasil?
- Eu e uma companheira acabamos de fazer uma excursão por várias cidades brasileiras, do Norte e do Sul, denunciando a atuação das tropas da OUN e o projeto burguês que essa presença apóia, mas fomos convidados para esse encontro que consideramos fundamental para a reorganização e renovação das mobilizações dos trabalhadores brasileiros. E a presença de companheiros do Uruguai e Bolívia, ainda que pequena, significa um germe de internacionalismo que deve existir entre os trabalhadores e principalmente entre a classe operária do mundo inteiro. Então, viemos dar nosso apoio e construir também esta organização internacional que deve existir.
- Qual a real situação no Haiti?
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Estamos no Brasil justamente para falar sobre a nossa situação, que é muito complexa. O povo haitiano é muito pobre e parece bom a ONU ajudar, mas, na verdade, o que há é um projeto burguês, um projeto imperialista, das multinacionais que vão ao Haiti principalmente para explorar a mão-de-obra, porque é a mais barata do mundo. Durante os últimos 30, 40 anos, têm destruído completamente a economia nacional de açúcar, arroz, café etc. Agora, 85% dos haitianos estão desempregados. Como é uma mão-de-obra muito pobre, a situação é também muito competitiva e explosiva, e a qualquer momento pode haver, e há, levantamentos, reivindicações e manifestações. Então, na realidade, as forças da ONU sob o comando brasileiro estão lá para manter a paz para o projeto burguês. Uma paz para manter o povo dominado e pronto para ser explorado. Por isso, somos contra não somente a presença dessas forças armadas, mas, sobretudo, contra o propósito, o objetivo dessa presença, que é de implementar o projeto burguês.
- Como as tropas internacionais têm tratado a população?
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No princípio, as forças brasileiras, argentinas, uruguaias, chilenas etc. que estão no Haiti não tinham muita incidência. Mas, pouco a pouco, o povo, que reivindicava e queria satisfazer suas necessidades no salário mínimo, na saúde, nos hospitais, nas moradias, na eletricidade etc. começou a se mobilizar e a reivindicar, então essas forças começaram a atuar e, nas vilas, bairros e favelas estão semeando o terror. Há muita matança, inclusive de crianças, um verdadeiro terror contra os trabalhadores. As tropas invadem constantemente, com tanques, Cité Soleil, Solino e outros bairros populares e favelas, disparando em tudo o que há. Disparando. Então, pouco a pouco essa ocupação se torna cada vez mais antagônica. Já acontecem várias manifestações de trabalhadores, de estudantes, e do povo em geral contra a atuação das forças armadas, a ocupação. Pouco a pouco, pois, foi se construindo a realidade e caindo a máscara de que as forças vieram ajudar, para clarificar que as elas estão lá para proteger o projeto burguês, proteger as fábricas burguesas, aos próprios burgueses e atacar o povo, semeando, como digo, um terror. Há uma matança que não está sendo causada pelos bandos armados ligados às drogas etc, e sim pelas forças da paz burguesa. Essa situação tem sido mostrada por alguns meios de comunicação. A Telesur, da Venezuela, fez um documentário. Então, pouco a pouco foi mudando a impressão e a relação do povo haitiano com essas forças. Para nós [movimentos sociais] estava claro, desde o princípio, o propósito dessas forças. Mas foi preciso dois, três anos de prática, de experiência, para cair a máscara e o objetivo dessas forças imperialistas ficar claro.
- Quem está organizando essas manifestações?
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Às vezes por organizações sindicais, às vezes por organizações de bairro, às vezes por organizações estudantis e às vezes são espontâneas.
- São unitárias?
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Não totalmente. São distintas, mas pouco a pouco está se fazendo, se construindo primeiro uma unidade que eu diria em essência, uma unidade contra essa presença e contra esse projeto, e pouco a pouco vai se criando uma unidade organizada para bater de frente com a ocupação.
- Como você vê a atuação das tropas ditas de paz contra as milícias do narcotráfico?
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[François] Duvalier, tirano ditador que governou por quase 30 anos, havia infiltrado os Tonton Macoutes
entre o povo, nos bairros populares, nos sindicatos, entre os trabalhadores e no campo também. Com a saída dele, o levantamento do povo inteiro rompeu essa estrutura. Agora, são as classes dominantes que, contraditoriamente, se beneficiam com esses bandos, mesmo pagando caro, pois sofrem seqüestros etc. Porém, como esses bandos armados também oprimem o povo, semeando o terror, as forças da ONU fazem um jogo duplo, lutando um pouco contra essas forças armadas, que não conseguem controlar, mas querendo sua presença porque funcionam como terror contra o povo também. Porque o mais importante para as classes dominantes é que o povo, os trabalhadores, não possam se organizar. Nas favelas, onde não existe tanto controle desde a saída de Duvalier, os bandos armados e a MINUSTAH [Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti, por sua sigla em francês] têm o mesmo papel. Na verdade, [as forças da ONU] estão tirando pouco a pouco, muito pouco a pouco, os bandos armados, porque precisam deles. Então, o terror dos bandos armados ou da MINUSTAH é o mesmo. Por isso que há uma contradição entre eles. Por isso que [as forças da ONU] não lutam verdadeiramente contra os bandos armados. A MINUSTAH tem tanques, armas e homens para atacar os bandos armados, mas não o faz porque precisam deles. Então é um jogo duplo de lutar contra e de precisar deles, mas com o mesmo objetivo de semear o terror e manter o povo acalmado e sem poder se organizar.
- Como vocês têm conseguido se organizar?
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Muito dificilmente, porque esse projeto burguês de exploração da mão-de-obra barata haitiana não precisa da organização dos trabalhadores, pois se os trabalhadores se organizam obtêm melhores salários e isso contraria a ganância dos capitalistas. Há uma repressão anti-sindical muito forte no Haiti, é muito difícil consolidar sindicatos. Às vezes a luta tem que ser clandestina, então, os trabalhadores se organizam clandestinamente nas fábricas. Mas já começamos a nos organizar também nos bairros e não apenas nas fábricas. Mas, outra vez, com o terror dos bandos armados, por um lado, e da polícia e da MINUSTAH, por outro, é muito difícil para os trabalhadores organizarem-se. Então, a Batalha Operária, por exemplo, se organiza em lugares possíveis, inclusive em igrejas, mesmo que também sejam alvos da MINUSTAH. Uma das primeiras ações da força dos Estados Unidos fez [em princípio não estavam os latino-americanos, mas apenas Estados Unidos] foi invadir e destruir duas organizações importantes, a Antena Operária, e outra de pequenos camponeses. Eles entraram nesses locais e destruíram tudo, supostamente buscando alguém que fazia falsos passaportes, o que nunca foi provado. Claramente, agiram contra os operários, trabalhadores e camponeses. Mesmo assim, pouco a pouco estamos lutando e iniciando uma resistência.
- Essa repressão é maior por parte do Estado, dos patrões ou de ambos?
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Por toda parte. Por parte dos patrões, que têm seus bandos armados em suas fábricas também e paramilitares. Porque esses bandos armados, é preciso entender claramente, são sustentadas por alguém. De onde tiram o dinheiro para ter tantas armas? De gente rica, das drogas, dos capitalistas. De gente que pode ter todo esse dinheiro não somente para as armas, mas também para as munições etc. Ou seja, há toda uma estrutura sustentada por classes poderosas e dominantes, que ataca a população civil pobre, nos bairros pobres e nas organizações dos trabalhadores. Então, isso deixa evidente o propósito da presença dessas forças armadas da ONU.
- Não há uma legislação sindical que garanta aos trabalhadores o direito à organização?
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Supostamente há um código de trabalho que garante a organização sindical. Nossa Constituição apenas prevê que os trabalhadores deveriam se organizar e que o Estado e o governo apóiem os trabalhadores que queiram construir um sindicato, mas a realidade é completamente diferente. Os burgueses no Haiti formam uma das classes dominantes mais repugnantes do mundo, porque também é uma das mais débeis do mundo, por isso tem que reprimir muitíssimo para extrair proveito, porque quem mais tira proveito dessa repressão são as multinacionais, o imperialismo. Por isso a repressão é total, mas contraditória, porque essas multinacionais querem explorar o povo de uma maneira extrema e isso constrói o antagonismo necessário para que essa classe explorada se levante.
- Fale um pouco sobre a Batalha Operária.
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Bom, nossa organização, Batalha Operária, é um movimento amplo, que tem trabalhadores sindicalizados e desempregados, trabalhadores que lutam em certo nível de clandestinidade e trabalhadores que estão organizados em seus bairros. O movimento também inclui pequenos camponeses, associações de bairros e até associações de pequenas vendedoras e associações de estudantes. Mas o movimento se chama precisamente Batalha Operária porque sabemos por experiência própria, que de todo o sistema que nos oprime, e que oprime a todos os trabalhadores, e todo o povo, incluindo os estudantes, os desempregados, é dirigido pelos capitalistas. O estado é só um aparato para organizarem seu projeto. Então, entendendo isso, para nós a classe fundamental frente a esse projeto é a classe operária.
- Então a experiência de vocês seria o que está se tentando formar aqui no Brasil com o Fórum Nacional de Mobilização Contra as Reformas Neoliberais?
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Sim, definitivamente. Temos com os companheiros da Conlutas uma semelhança de interesses e uma semelhança de orientação em muitas coisas, por isso viemos. Esse é um processo que se passa em toda a América Latina. Não somente pelo passado distante, mas pelo passado recente também, desses governos que supostamente eram populares, que eram de trabalhadores, mas não cumpriram o que diziam em suas campanhas, isso ocorre aqui também. O Haiti é um caso extremo, por isso que há a ocupação. Mas na realidade tem o mesmo projeto imperialista burguês de roubar os recursos naturais, de explorar a classe operária etc.
- Como os haitianos vêem o governo Lula?
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Bom, é uma opinião muito contraditória. Em princípio, os haitianos que têm um conhecimento disso, porque nem todos se preocupavam ou conheciam o que estavam passando, receberam muito bem esse processo latino-americano de eleição de governos que se dizia de trabalhadores. Mas pouco a pouco a desilusão foi grande, não somente com a ocupação do país pelas forças de paz, que não se dá conta de que defende o projeto burguês.
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