Nº 17 - Brasília, 25 de maio de 2007
 

UNIFICAÇÃO CONTRA RETIRADA DE DIREITOS
Manifestações do dia 23 unem trabalhadores de todo o país

Atendendo convocatória do ANDES-SN, Conlutas e outras entidades do Fórum Nacional de Mobilização Contra as Reformas Neoliberais, as associações de docentes realizaram manifestações públicas nessa quarta-feira 23 em praticamente todo o país. Os protestos dos docentes contra a reforma universitária e as medidas dos governos estaduais e federal que ferem a autonomia das universidades, precarizam o trabalho docente e a educação como um todo se uniram aos de outros movimentos como MST, MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) e sindicados ligados às demais centrais sindicais.

Pela primeira vez unidos em um movimento nacional de reivindicação, a esquerda radical, movimentos autônomos e setores mais alinhados ao governo deram ao Planalto um recado claro de que haverá resistência contra propostas de retirada de direitos. Em Brasília, cerca de oito mil manifestantes foram à Esplanada dos Ministérios dizer ao governo Lula que não aceitam sua política de cortes de direitos que prioriza o pagamento de dívidas e favorece ao grande capital.

Representantes do ANDES-SN participaram do movimento. Paulo Gomes, 2º Tesoureiro do sindicato, comemorou a unidade da luta. Para ele, o dia deu seqüência ao encontro do dia 25 de março em São Paulo e marcou a união da classe trabalhadora para barrar as reformas neoliberais que estão em curso no país. “A partir da unidade que está sendo construída nacionalmente, nós vamos virar o jogo”, afirmou.

De acordo os movimentos que participaram da mobilização, ocorreram atividades em praticamente todos os Estados. Por parte do MST, por exemplo, foram contabilizados 39 bloqueios de rodovias federais e estaduais em oitos Estados (São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Paraíba). O Movimento dos Atingidos por Barragens ocupou hidrelétricas no Pará, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e bloqueou estradas em Goiás, Ceará e na Paraíba. Nos Estados já citados, como nos demais - Acre, Amazonas, Amapá, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima, e Tocantins, bem como em Brasília -, o movimento sindical, estudantil e demais articulados na jornada paralisaram atividades nos serviços públicos e empresas privadas, e realizaram atos e manifestações nos centros urbanos.

Exercício de tolerância e coexistência política
Apesar do alcance das manifestações em nível nacional, no entanto, para os grandes movimentos sociais e sindicais o 23 de maio foi um exercício nada fácil de tolerância e coexistência política. Unificados inicialmente em torno de um comunicado conjunto, que apontou a política econômica do governo como principal fator de aprofundamento dos desajustes sociais, nos últimos dias a CUT acabou se apartando dos demais com um discurso voltado ao apoio ao veto do presidente Lula à emenda 3 da Super Receita, e questões pontuais, como o PLP 001/07.

José Maria de Almeida, da Coordenação da Conlutas, concordou com a avaliação de sucesso da jornada por conta da unificação de tantos e tão diversos setores, mas ponderou que o maior desafio da articulação será a superação das diferenças entre a CUT e os setores mais críticos ao governo.

Impactos e perspectivas
A avaliação das diferentes lideranças é de que a mobilização do dia 23 deverá ter conseqüências interessantes. Por um lado, avalia Paulo Pasin, um dos dois dirigentes sindicais demitidos pelo metrô de São Paulo e ligado à Intersindical, houve uma demonstração de forças por parte dos trabalhadores que deve levar governo e Congresso a refletir, antes de mexer em direitos trabalhistas. Por outro lado, apesar da certeza de que a mídia deverá jogar contra os movimentos, a temperatura da luta foi elevada e deve contagiar um número crescente de trabalhadores, quando se derem conta que seus direitos estão em perigo.

"Vai ser difícil o Congresso derrubar o veto à emenda 3 agora, bem como criar um substitutivo a ela. Também demos um recado ao Fórum da Previdência, não aceitaremos reformas", diz Pasin. Em outubro, quando uma conclusão sobre a matéria deverá ser encaminhada pelo Fórum ao Congresso, os movimentos planejam uma grande marcha a Brasília para pressionar contra perdas de direitos.

Para o dirigente nacional do MST Gilmar Mauro, a articulação dos vários setores e movimentos - que teve início, segundo ele, nas manifestações contra o presidente dos EUA, George W. Bush, em março deste ano, e depois se consolidou no 1º de Maio de Luta, na Praça da Sé, em São Paulo - conseguiu realizar uma das maiores mobilizações da história recente do país e teve o mérito de universalizar, entre os vários atores, as pautas específicas de cada movimento, num gesto de solidariedade muito importante para o sucesso das lutas sociais.

"O recado ao Congresso, ao governo e ao Capital foi claro: amplos setores da sociedade organizada não vão deixar barato ataques aos seus direitos", afirma Mauro. Prova disso, segundo ele, foi a paralisação de muitas categorias do setor produtivo ("como Toyota e Honda em Campinas, por exemplo") e a sinalização de que outras paralisações poderão ocorrer. Os bloqueios de rodovias também simbolizaram a capacidade de interrupção do fluxo do capital. (Com a agência Carta Maior)

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