Nº 38 - Brasília, 7 de março de 2008
 

8 DE MARÇO
Mulheres recuperam sentido do ‘8 de março’ com ações de enfrentamento ao modelo capitalista

Najla Passos
ANDES-SN

Movimentos comprometidos com a luta pela emancipação das mulheres iniciaram, esta semana, uma série de atividades que visam à recuperação do sentido original do “8 de março”, o Dia Internacional da Mulher: o de mobilizar as trabalhadoras para o enfrentamento ao modelo capitalista, que furta da esmagadora maioria do povo brasileiro o direito a uma vida digna.

São seminários, debates, acampamentos, ocupações de terras ilegais, protestos e manifestações que relembram que a data está diretamente ligada à luta histórica das mulheres socialistas. Nada tem a ver com o mito das 129 trabalhadoras queimadas vivas durante uma greve em Nova York, em 1857. Muito menos com o viés comercial propalado em meio a cartões de parabéns, flores, bombons e vales-motéis.

Em vários estados, essas ações têm acarretado forte repressão policial direta. Na terça-feira (4/3), uma Brigada da Polícia Militar feriu pelo menos 50 das 900 mulheres da Via Campesina que ocupavam a Fazenda Tarumã, em Rosário do Sul (RS). As 250 crianças que acompanhavam suas mães na ação foram isoladas e imobilizadas pela Polícia, que as obrigou a se deitarem de bruços, no chão, com as mãos sobre as costas.

Em Pernambuco, outras 200 mulheres da Via Campesina que protestavam contra a desocupação do Engenho Cachoeira Dantas, no município de Água Preta, passaram o dia sob a mira das armas de fogo da Polícia Militar. Conforme a assessoria de imprensa do MST, os policiais atiraram a ermo pelo acampamento para intimidar as mulheres, disseminando o pânico entre as 30 crianças que encontravam-se no local.

Símbolos capitalistas
A Fazenda Tarumã, no Rio Grande do Sul, foi adquirida irregularmente pela multinacional sueco-finlandesa Stora Enso. Conforme a constituição Brasileira, reforçada por legislação específica, estrangeiros não podem possuir terras na faixa de 150 Km da fronteira do Brasil, categoria em que se encontra a Fazenda Tarumã.

As mulheres camponesas reivindicam a desapropriação dessa e de outras áreas ilegais da multinacional para fins de reforma agrária, alegando que somente os 45 mil hectares que estão em nome de um dos testas de ferro da Stora Enso seriam suficientes para assentar 2.250 famílias, gerando 6.750 empregos diretos. Pedem ainda a retirada da pauta do Congresso nacional dos projetos que propõem a redução da faixa de fronteira.

Em Pernambuco, o protesto das mulheres visa denunciar a ação coordenada entre polícia, justiça e poderia econômico. A desocupação do engenho, efetivada no último dia 19, significou o desemprego e o desamparo para 66 famílias que trabalhavam na produção de cana-de-açúcar e álcool há mais de 20 anos. Demitidas sem receber as devidas indenizações trabalhistas, as famílias ocuparam a área em busca dos seus direitos.

A Justiça de Pernambuco, entretanto, permitiu que o imóvel fosse penhorado e arrematado por um novo proprietário que, indiferente à situação dos trabalhadores rurais, exigiu judicialmente a reintegração de posse da área, deixando-as na miséria e sem ter para onde ir.

Outras ações no campo
Na manhã desta sexta-feira (7/3), mulheres da Via Campesina ocuparam uma unidade de pesquisa biotecnológica da empresa norte-americana Monsanto, em Santa Cruz das Palmeiras (SP), e destruíram um viveiro e o campo experimental de milho transgênico, em protesto contra a liberação do plantio de duas variedades de milho transgênico pelo Conselho Nacional de Biossegurança – CNBS.

Para o movimento, a liberação dessas variedades demonstra que o governo Lula, mais uma vez, fez a opção política de atender às reivindicações do agronegócio e das empresas transnacionais do setor da agricultura, em detrimento da agricultura familiar e da Reforma Agrária.

No Pará, cerca de 600 mulheres da Via Campesina estão acampadas no campus da Universidade Federal do Pará – UFPA, discutindo o tema “Mulheres contra o imperialismo e pela igualdade de gênero”. Nesta sexta-feira (7/3), elas marcharam pela capital do estado e participaram de audiência pública.

No Paraná, ações em vários municípios marcam a data. Com o lema "Mulheres da Via Campesina em Defesa da Saúde, da Biodiversidade e da Vida!”, cerca de 1.500 mulheres realizam mobilizações nesta sexta-feira (7/3) para denunciar os crimes da transnacional Suíça Syngenta Seeds, responsável pelo assassinato do trabalhador Valmir Mota de Oliveira e pelo ataque ao acampamento da Via Campesina, em outubro passado, em Santa Tereza do Oeste (PR).

Cerca de 300 camponesas protestam durante todo o dia em frente ao escritório regional da Syngenta, no centro de Londrina. Na região Oeste, 600 mulheres realizam uma caminhada entre o trevo de Santa Tereza do Oeste e o campo de experimentos da Syngenta, local do ataque contra os trabalhadores da Via Campesina. Outros municípios, como Ponta Grossa e União da Vitória, registram outras atividades de protesto.

Em Mato Grosso, 200 mulheres se reúnem em Cáceres, na região sudoeste, e outras 150 em Sinop, no norte, para debaterem as conseqüências do avanço do agronegócio, em uma perspectiva feminina. Em Cáceres haverá uma grande marcha pelo centro da cidade e ato público no sábado, às 16h, em conjunto com outras entidades e movimentos sociais para denunciaras ações criminosas do agronegócio e a conivência dos governos federal e estadual com os projetos dos latifundiários e das grandes transnacionais.

O mito da greve de Nova York
Pesquisas efetuadas nos últimos 40 anos revelam que a história comumente divulgada de que o Dia Internacional das Mulheres está ligado a uma greve realizada em Nova Iorque, em 1857, quando 129 operárias teriam sido queimadas vivas, não passa de um mito.

“O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas”, atesta o escritor Vito Gianotti, um dos coordenadores do Núcleo Piratininga de Comunicação – NPC, já no título do caderno que produziu sobre o tema. Conforme ele, o dia 8 de Março foi consagrado por uma greve de operárias russas em 1917 que, sem querer, foi o estopim da grande Revolução Russa. Logo em seguida, em 1919, a 3ª Internacional declarou a data como o dia mundial da luta das mulheres.

Sobre a origem do mito que imputa o “8 de março” a tal greve nos Estados Unidos, Gianotti acredita que a explicação é política. No ambiente da guerra fria, a origem real do dia não agradava a muitos... social-democratas, burgueses e anticomunistas em geral. Por isso, uma outra história foi criada para mitificá-lo. E esta história foi tão repetida ao longo do tempo que quase se tornou verdade.

Baseado em estudos de vários autores que se debruçaram sobre o tema, o escritor revela que, de fato, houve uma outra greve em Nova York, precisamente em 1911, em que 146 pessoas, na maioria costureiras judias e italianas, de 13 a 25 anos, morreram em decorrência de um incêndio causado pelas péssimas condições de segurança da fábrica. Para ele, pode ter surgido daí o mito das 129 operárias mortas em 1857, tão difundido no ocidente.

Professora de Sociologia e coordenadora do Núcleo de Estudos da Mulher e Questões de Gênero da Universidade de São Paulo – USP, Eva Alterman Blay aposta na mesma direção de Gianotti. No artigo “Oito de março: comunistas e controvérsias”, ela defende que “o Dia Internacional da Mulher foi proposto por Clara Zetkin em 1910 no II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas”.

Eva defende, em seu texto, que, no século XIX e no início do XX, homens, mulheres e crianças trabalhavam em jornadas de 12, 14 horas, em semanas de seis dias inteiros e freqüentemente incluindo as manhãs de domingo. Os salários eram de fome e as condições de trabalho, terríveis. “Os proprietários tratavam as reivindicações dos trabalhadores como uma afronta, operárias e operários considerados como as ‘classes perigosas’”.

Ainda conforme a autora, as lutas de operários e operárias eram freqüentes e conjuntas, “mas em nenhum momento, até por volta de 1960, a luta sindical teve o objetivo de que homens e mulheres recebessem salários iguais, pelas mesmas tarefas. As trabalhadoras participavam das lutas gerais mas, quando se tratava da igualdade salarial, não eram consideradas. Alegava-se que as demandas das mulheres afetariam a ‘luta geral’, prejudicariam o salário dos homens e, afinal, as mulheres apenas ‘completavam’ o salário masculino”.

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