Nº 38 - Brasília, 7 de março de 2008
 

AMÉRICA LATINA
“Crise política pautará Encontro dos Trabalhadores”, diz Zago

Najla Passos
ANDES-SN

O aprofundamento da crise política na América Latina, provocado pelos recentes conflitos diplomáticos envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela, irá refletir na organização do I Encontro Latino-americano e Caribenho dos Trabalhadores, que será realizado nos dias 7 e 8 de julho, Em Betim (MG). A avaliação é do professor aposentado da Unicamp, José Vitório Zago, 1º tesoureiro do ANDES-SN e encarregado de Relações Sindicais.

Promovido pela Coordenação Nacional de Lutas - Conlutas, Central Obrera da Bolívia - COB, Batay Ouvriye (movimento sindical e popular do Haiti), e Tendência Classista e Combativa (corrente do movimento sindical
uruguaio), o evento se propõe a dar um passo decisivo na luta pela
unificação dos trabalhadores do continente, igualmente expropriados pela política imperialista. “É natural que um evento como esse seja pautado pela conjuntura política”, afirma Zago, em entrevista ao Informandes Online.

Informandes Online - Os últimos eventos envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela instauraram, de fato, uma crise na América Latina?
José Vitório Zago - A América Latina já se encontrava em crise mesmo antes desses eventos. Pelo menos desde 2000, as populações de vários países latino-americanos têm se revoltado. Isso aconteceu no Equador, na Bolívia, na Argentina e na Venezuela... sem contar a Colômbia, que vive
em guerra civil há 40 anos. O problema é que as populações desses países
não têm conseguido obter ganhos efetivos a partir dessas revoltas, porque os governos eleitos para substituir os tradicionais – incluindo aí os de origem popular e que se propunham a defender os interesses dos trabalhadores, acabam reproduzindo as mesmas medidas efetivadas antes pelos governos neoliberais.

IO – E quais são as causas desta crise?
JVZ –
A causa é principalmente a influência do imperialismo estadunidense, embora o imperialismo europeu também afete a América Latina. Não por acaso, os países latinos sempre foram considerados o “quintal dos Estados Unidos”. E tudo isso é agravado, claro, pela subserviência dos governos desses países às imposições do imperialismo, mesmos dos governos considerados mais à esquerda, como é o caso de Hugo Chávez, da Venezuela, de Evo Morales, da Bolívia, e de Rafael Correa, do Equador. Não fosse essa subserviência, os governos de Hugo Chaves e Rafael Correa, principais alvos do governo da Colômbia e do seu apoiador, o governo dos Estados Unidos, já teriam feito represálias às empresas imperialistas que atuam em seus países.

IO - Os Estados Unidos são, portanto, os maiores interessados na crise latino-americana?
JVZ –
Claro. O que os Estados Unidos querem é provocar um fato que justifique sua intervenção no continente, política muito antiga que, na atualidade, se concretiza através do Plano Colômbia, com o estabelecimento de várias bases militares na Colômbia e uma no Equador (Base de Manta), sem contar a Base de Guantánamo, em Cuba. Na verdade, os Estados Unidos aprenderam as lições geradas a partir das tentativas de sufocamento da revolução cubana, como demonstraram posteriormente em relação a El Salvador e à Nicarágua. Para o imperialismo norte-americano, o ideal é que sua política seja imposta através da chamada “reação democrática”, ou seja, por meio de eleições que reforçam a lógica burguesa nos países visados. Entretanto, para o caso de isso não ser suficiente, eles sempre mantêm o aparato militar à disposição.

IO – Como você avalia a intervenção do Brasil na crise diplomática entre Colômbia e Equador?
JVZ –
O governo Lula mantém uma relação de “amor e inveja” com o governo Hugo Chavez. O governo brasileiro apóia Chávez, apóia muitas posições de Chávez na Política Internacional, mas também não quer permitir que ele se torne o grande representante dos países latino-americanos. Além disso, o PT, partido de Lula, faz parte do Foro de São Paulo (fórum que reúne partidos e organizações da esquerda reformista da América Latina e do Caribe), do qual as FARC (Forças Armadas da Colômbia) também fazem parte. Nesse contexto, o Brasil agiu corretamente, assim como também a OEA (Organização dos Estados Americanos) ao condenar a invasão do território equatoriano pela Colômbia. O problema das FARC, nem o de qualquer outro grupo, seja ele de que natureza for, pode justificar a agressão à soberania de um país.

IO – Qual é a posição do Movimento Docente e da Conlutas com relação às FARC?
JVZ –
As posições são conflitantes tanto no âmbito do ANDES-SN quanto da Conlutas. Não há posições fechadas. O que posso apresentar é minha posição pessoal que, certamente será condenada por muitos, mas, a meu ver, não deixa de ser uma forma de contribuir com o debate. As FARC não são um grupo terrorista como os Estados Unidos tentam nos fazer acreditar, mas sim uma força beligerante atuando contra o imperialismo em um país que vive em meio a uma guerra civil há 40 anos. As FARC dominam e governam de 30% a 40% do território da Colômbia. Não são um grupo terrorista. Aliás, terrorista é o governo norte-americano, que ataca o Iraque, apóia o Estado sionista e utiliza a tortura como método para conseguir confissões, como fez com os prisioneiros de Guantánamo. O Brasil deveria reconhecer as FARC como força política e, inclusive, lhe garantir representação diplomática, como já fez no passado com a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), antes da criação da Autoridade Nacional Palestina. Entretanto, sou contrário ao programa político das FARC, um programa burguês que, embora lute contra o imperialismo, não visa à construção de uma sociedade socialista. Também não concordo com as estratégias guerrilheiras utilizadas pelas FARC, porque é um método que subordina o político e o movimento de massa ao caráter militar da estratégia. Para nós, a revolução social deve ser construída através da mobilização das massas. De qualquer forma, é importante ficar claro que reconhecer as FARC como força legítima não significa concordar com seu programa político ou com seus métodos de atuação.

IO – A renúncia de Fidel Castro à presidência de Cuba, de alguma forma, corrobora com o aprofundamento da crise na América Latina?
JVZ –
Eu tenho uma visão bastante particular a respeito de Fidel Castro que, nos últimos anos, vinha servindo ao imperialismo como instrumento de restauração capitalista em Cuba. Para a política do imperialismo norte-americano, o ideal mesmo era ter Fidel como aliado nesse processo de reconstrução do capitalismo em Cuba, principalmente para usufruir do prestígio inegável que ele gozava como revolucionário. E essa transição já foi feita. Cuba voltou a ser um país capitalista. Fidel saiu porque cumpriu a missão. Agora, resta a Cuba encontrar um novo líder para resolver as questões ainda pendentes, como, por exemplo, a dos milhares de imigrantes que vivem nos Estados Unidos.

IO – Todos esses assuntos farão parte da pauta do I Encontro Latino-americano e Caribenho dos Trabalhadores?
JVZ –
A instabilidade política da América Latina e também do Caribe certamente refletirão na pauta do evento. Na última reunião da Conlutas, já travamos um debate sobre a questão da Venezuela, que ainda é muito polêmica entre os militantes dos movimentos sindical e social. Entretanto, uma decisão já foi tomada: iremos defender os companheiros trabalhadores perseguidos pelo governo Chávez. Posições como a defesa da soberania do Equador e à crítica ao imperialismo norte-americano também são muito claras para a Conlutas, porque vão ao encontro do nosso programa. A maior importância do evento, entretanto, reside no fato de que ele pretende reorganizar os trabalhadores do continente para enfrentar os diversos governos que, após se instalarem no poder, só têm repetido os mesmos erros do passado e, com isso, impedido melhorias efetivas na vida da classe trabalhadora.

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