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AMÉRICA
LATINA
“Crise política pautará Encontro
dos Trabalhadores”, diz Zago
Najla
Passos
ANDES-SN
O aprofundamento
da crise política na América Latina, provocado pelos recentes
conflitos diplomáticos envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela,
irá refletir na organização do I Encontro Latino-americano
e Caribenho dos Trabalhadores, que será realizado nos dias 7 e
8 de julho, Em Betim (MG). A avaliação é do professor
aposentado da Unicamp, José Vitório Zago, 1º tesoureiro
do ANDES-SN e encarregado de Relações Sindicais.
Promovido pela Coordenação
Nacional de Lutas - Conlutas, Central Obrera da Bolívia - COB,
Batay Ouvriye (movimento sindical e popular do Haiti), e Tendência
Classista e Combativa (corrente do movimento sindical
uruguaio), o evento se propõe a dar um passo decisivo na luta pela
unificação dos trabalhadores do continente, igualmente expropriados
pela política imperialista. “É natural que um evento
como esse seja pautado pela conjuntura política”, afirma
Zago, em entrevista ao Informandes Online.
Informandes
Online - Os últimos eventos envolvendo Colômbia, Equador
e Venezuela instauraram, de fato, uma crise na América Latina?
José Vitório Zago - A América Latina
já se encontrava em crise mesmo antes desses eventos. Pelo menos
desde 2000, as populações de vários países
latino-americanos têm se revoltado. Isso aconteceu no Equador, na
Bolívia, na Argentina e na Venezuela... sem contar a Colômbia,
que vive
em guerra civil há 40 anos. O problema é que as populações
desses países
não têm conseguido obter ganhos efetivos a partir dessas
revoltas, porque os governos eleitos para substituir os tradicionais –
incluindo aí os de origem popular e que se propunham a defender
os interesses dos trabalhadores, acabam reproduzindo as mesmas medidas
efetivadas antes pelos governos neoliberais.
IO
– E quais são as causas desta crise?
JVZ – A causa é principalmente a influência
do imperialismo estadunidense, embora o imperialismo europeu também
afete a América Latina. Não por acaso, os países
latinos sempre foram considerados o “quintal dos Estados Unidos”.
E tudo isso é agravado, claro, pela subserviência dos governos
desses países às imposições do imperialismo,
mesmos dos governos considerados mais à esquerda, como é
o caso de Hugo Chávez, da Venezuela, de Evo Morales, da Bolívia,
e de Rafael Correa, do Equador. Não fosse essa subserviência,
os governos de Hugo Chaves e Rafael Correa, principais alvos do governo
da Colômbia e do seu apoiador, o governo dos Estados Unidos, já
teriam feito represálias às empresas imperialistas que atuam
em seus países.
IO
- Os Estados Unidos são, portanto, os maiores interessados na crise
latino-americana?
JVZ – Claro. O que os Estados Unidos querem é provocar
um fato que justifique sua intervenção no continente, política
muito antiga que, na atualidade, se concretiza através do Plano
Colômbia, com o estabelecimento de várias bases militares
na Colômbia e uma no Equador (Base de Manta), sem contar a Base
de Guantánamo, em Cuba. Na verdade, os Estados Unidos aprenderam
as lições geradas a partir das tentativas de sufocamento
da revolução cubana, como demonstraram posteriormente em
relação a El Salvador e à Nicarágua. Para
o imperialismo norte-americano, o ideal é que sua política
seja imposta através da chamada “reação democrática”,
ou seja, por meio de eleições que reforçam a lógica
burguesa nos países visados. Entretanto, para o caso de isso não
ser suficiente, eles sempre mantêm o aparato militar à disposição.
IO
– Como você avalia a intervenção do Brasil na
crise diplomática entre Colômbia e Equador?
JVZ – O governo Lula mantém uma relação
de “amor e inveja” com o governo Hugo Chavez. O governo brasileiro
apóia Chávez, apóia muitas posições
de Chávez na Política Internacional, mas também não
quer permitir que ele se torne o grande representante dos países
latino-americanos. Além disso, o PT, partido de Lula, faz parte
do Foro de São Paulo (fórum que reúne partidos e
organizações da esquerda reformista da América Latina
e do Caribe), do qual as FARC (Forças Armadas da Colômbia)
também fazem parte. Nesse contexto, o Brasil agiu corretamente,
assim como também a OEA (Organização dos Estados
Americanos) ao condenar a invasão do território equatoriano
pela Colômbia. O problema das FARC, nem o de qualquer outro grupo,
seja ele de que natureza for, pode justificar a agressão à
soberania de um país.
IO
– Qual é a posição do Movimento Docente e da
Conlutas com relação às FARC?
JVZ – As posições são conflitantes
tanto no âmbito do ANDES-SN quanto da Conlutas. Não há
posições fechadas. O que posso apresentar é minha
posição pessoal que, certamente será condenada por
muitos, mas, a meu ver, não deixa de ser uma forma de contribuir
com o debate. As FARC não são um grupo terrorista como os
Estados Unidos tentam nos fazer acreditar, mas sim uma força beligerante
atuando contra o imperialismo em um país que vive em meio a uma
guerra civil há 40 anos. As FARC dominam e governam de 30% a 40%
do território da Colômbia. Não são um grupo
terrorista. Aliás, terrorista é o governo norte-americano,
que ataca o Iraque, apóia o Estado sionista e utiliza a tortura
como método para conseguir confissões, como fez com os prisioneiros
de Guantánamo. O Brasil deveria reconhecer as FARC como força
política e, inclusive, lhe garantir representação
diplomática, como já fez no passado com a OLP (Organização
para a Libertação da Palestina), antes da criação
da Autoridade Nacional Palestina. Entretanto, sou contrário ao
programa político das FARC, um programa burguês que, embora
lute contra o imperialismo, não visa à construção
de uma sociedade socialista. Também não concordo com as
estratégias guerrilheiras utilizadas pelas FARC, porque é
um método que subordina o político e o movimento de massa
ao caráter militar da estratégia. Para nós, a revolução
social deve ser construída através da mobilização
das massas. De qualquer forma, é importante ficar claro que reconhecer
as FARC como força legítima não significa concordar
com seu programa político ou com seus métodos de atuação.
IO
– A renúncia de Fidel Castro à presidência de
Cuba, de alguma forma, corrobora com o aprofundamento da crise na América
Latina?
JVZ – Eu tenho uma visão bastante particular a respeito
de Fidel Castro que, nos últimos anos, vinha servindo ao imperialismo
como instrumento de restauração capitalista em Cuba. Para
a política do imperialismo norte-americano, o ideal mesmo era ter
Fidel como aliado nesse processo de reconstrução do capitalismo
em Cuba, principalmente para usufruir do prestígio inegável
que ele gozava como revolucionário. E essa transição
já foi feita. Cuba voltou a ser um país capitalista. Fidel
saiu porque cumpriu a missão. Agora, resta a Cuba encontrar um
novo líder para resolver as questões ainda pendentes, como,
por exemplo, a dos milhares de imigrantes que vivem nos Estados Unidos.
IO
– Todos esses assuntos farão parte da pauta do I Encontro
Latino-americano e Caribenho dos Trabalhadores?
JVZ – A instabilidade política da América
Latina e também do Caribe certamente refletirão na pauta
do evento. Na última reunião da Conlutas, já travamos
um debate sobre a questão da Venezuela, que ainda é muito
polêmica entre os militantes dos movimentos sindical e social. Entretanto,
uma decisão já foi tomada: iremos defender os companheiros
trabalhadores perseguidos pelo governo Chávez. Posições
como a defesa da soberania do Equador e à crítica ao imperialismo
norte-americano também são muito claras para a Conlutas,
porque vão ao encontro do nosso programa. A maior importância
do evento, entretanto, reside no fato de que ele pretende reorganizar
os trabalhadores do continente para enfrentar os diversos governos que,
após se instalarem no poder, só têm repetido os mesmos
erros do passado e, com isso, impedido melhorias efetivas na vida da classe
trabalhadora.
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