Nº 39 - Brasília, 14 de março de 2008
 

CORRUPÇÃO
FUNDAÇÕES DITAS DE APOIO COLOCAM UNIVERSIDADES NAS PÁGINAS POLICIAIS

Danos à imagem das universidades comprovam que a relação entre fundações e universidades não deve prosseguir

Elizângela Araújo
ANDES-SN

Até o fechamento desta edição (13/3), mais três fundações de apoio foram notícia esta semana: a Fundação de Apoio ao Desenvolvimento – FADE, da Universidade Federal de Pernambuco, a Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional - Fadurpe, ligada à Universidade Federal Rural de Pernambuco – UFRPE, e a José Pelúcio Ferreira – Fundação Universitária de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.

O promotor de justiça Ulisses de Araújo e Sá Júnior, da Promotoria de Tutela de Fundações e Entidades de Interesses Sociais do Ministério Público do Estado de Pernambuco – MPPE, espera concluir o inquérito da FADE até o final deste mês. De acordo com ele, há várias irregularidades nos convênios firmados com a própria universidade e com os governos estadual e municipal, principalmente desvio de finalidade.

Em entrevista por telefone, o promotor não revelou detalhes da investigação na FADE, mas informou que a principal irregularidade, que determina todas as outras, é o desvio de finalidade. “O mínimo que posso dizer é que boa parte dos convênios há desvio de finalidade. Eles usam muito a expressão desenvolvimento institucional com uma interpretação muito ampla, e grande parte dos objetos dos convênios não trata disso”. Um dos exemplos citados pelo promotor é contratação da fundação pela UFPE para capinar a grama do campus. “A manutenção de áreas externas da universidade não tem nada a ver com desenvolvimento institucional!”, ressalta o promotor. Ulisses Júnior disse que não queria “emitir nenhum juízo de valor antes da conclusão do inquérito”.

A investigação começou em 2004. “Na abertura do inquérito, solicitamos à Controladoria Geral da União, do Estado e da Prefeitura de Recife informações sobre todos os recursos repassados à fundação. À FADE, requisitamos cópias de todos os convênios firmados. Também juntamos pareceres do Tribunal de Contas da União – TCU. Enfim, agora, na fase final, todos os documentos financeiros e contábeis estão sendo analisados pelos especialistas do MPPE”, detalhou o promotor. Após quatro anos de investigação, o inquérito ficou com 15 volumes.

De acordo com informações do Blog de Jamildo, do Jornal do Commercio, a FADE teria recebido R$ 50 milhões do Ministério da Ciência e Tecnologia - MCT, R$ 1,7 milhão do Ministério da Integração Nacional e R$ 1,2 milhão do Ministério da Educação - MEC. Como a Finatec, os negócios da FADE não se restringiram às divisas estaduais.

O jornalista cita informações de bastidores da CPI das ONGs, do Senado, sobre um contrato assinado com a Prefeitura de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, cujo valor inicial de R$ 2 milhões teria sido retificado para R$ 4 milhões. De acordo com as notícias veiculadas pelo jornalista, há suspeitas de que a FADE também tenham sido utilizada para favorecer políticos petistas, também como a Finatec.

Fadurpe - Nesta quinta (13/2), a Promotoria divulgou a abertura de um inquérito para apurar possíveis irregularidades praticadas pela Fundação Apolônio Salles de Desenvolvimento Educacional - Fadurpe, ligada à Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE.

O promotor Ulisses de Araújo Sá Júnior requereu a diversos órgãos públicos informações a respeito de pagamentos recebidos pela Fadurpe, repasse de verbas públicas e contratos firmados com a entidade nos últimos cinco anos - mesmo procedimento adotado na abertura do inquérito da FADE. De acordo com O MPPE, A Fadurpe teve as contas relativas ao ano de 2006 rejeitadas.

Inicialmente, o inquérito se baseia em decisões proferidas pelo Tribunal de Contas da União - TCU, que apontam irregulares em contratos cuja licitação foi dispensada, subcontratações acima do limite permitido e contratação da fundação para atos administrativos de competência da própria universidade em exercícios anteriores.

Diretor da Fundação José Pelúcio, da UFRJ, coordenava fraude que ocasionou afastamento do prefeito de Campos
Na terça-feira 11, 14 pessoas foram presas durante uma operação da Polícia Federal em Campos, no Rio de Janeiro, por participarem de uma quadrilha que contratava funcionários terceirizados de forma irregular para trabalhar na prefeitura. De acordo com o jornal O Globo, os contratos tinham valores superfaturados e a diferença era distribuída entre os envolvidos. Cerca de 20 mil pessoas foram contratadas dessa forma desde o início deste ano. A maioria dos contratos terceirizados foi feita por meio da Fundação José Pelúcio, ligada à UFRJ.

Segundo declarações do superintendente da Polícia Federal no Rio, Valdinho da Silva Caetano, o empresário Ricardo Pimentel, diretor da Fundação, seria o coordenador da quadrilha. A Polícia Federal pediu o seqüestro de uma aeronave Cesna que pertenceria a ele e custaria cerca de R$ 5 milhões. Outras contratações foram feitas pela filial Nova Iguaçu da Cruz Vermelha Brasileira. Também há cinco empresas envolvidas nas contratações de shows também de forma superfaturada.

Além do diretor da fundação, também foram presos o procurador-geral do município de Campos, Alex Pereira Campos; o secretário de obras de Campos, José Luis Puglia; o secretário de Desenvolvimento de Campos, Edilson Quintanilha; o gerente geral de Campos, Francisco de Assis Rodrigues; o presidente da Fundação José Pelúcio, Marco Antônio França Faria; o presidente da filial Nova Iguaçu da Cruz Vermelha Brasileira, José Renato Muniz Guimarães; a locutora de rádio Dilcinéia das Graças Freitas Batista; os empresários Santiago Perez, Marianna Pimentel, Antônio Geraldo Seves, Fábio Lucas Seves e Stephan Jakimow. O tenente-coronel bombeiro Eduardo Ribeiro Neto, subcomante do Grupamento de Bombeiros de Campos, foi preso em flagrante por causa das armas ilegais encontradas em sua casa.

Houve buscas na casa do prefeito de Campos, Alexandre Mocaiber, e na Prefeitura. Documentos foram recolhidos para análises. O prefeito não pode ser preso porque tem foro privilegiado, mas foi afastado de suas funções a pedido do Ministério Público Federal.

Ministro diz que governo quer disciplinar a atuação das fundações
Diante dos escândalos envolvendo as fundações de apoio, o ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou na última quarta (12/3) que está em estudo uma portaria para disciplinar a atuação das fundações de apoio às universidades públicas. De acordo com o ele, um dos principais pontos sob análise é a incorporação das taxas de administração pagas pelas fundações à receita própria das universidades.

Atualmente, as taxas de administração são revertidas em bens e serviços executados pelas fundações de apoio, que não são obrigadas a cumprir a Lei de Licitações. De acordo com Haddad, outras mudanças em estudo são a participação de professores nos conselhos das fundações e a revisão dos procedimentos para credenciá-las.

Análise do ANDES-SN
Para o secretário geral do Sindicato Nacional, Luiz Henrique Schuch, os escândalos envolvendo as fundações ditas de apoio que colocam as universidades públicas nas páginas policiais trazem grandes danos à imagem dessas instituições. “As universidades públicas federais são local de ensino, pesquisa e extensão, mas, infelizmente, também têm sido lugar de falcatruas e negociatas inescrupulosas que desviam dinheiro público e mancham a reputação das universidades. Ou essa relação acaba, ou a credibilidade da universidade pública brasileira estará para sempre ameaçada”.

Sobre a declaração de Haddad, Schuch afirma que o governo não pode mais se restringir “jeitinhos que não resolvem definitivamente a aberração constitutiva dessa relação com as fundações privadas ditas de apoio”.

Enquanto isso, na UnB...
Reunidos em assembléia na última quarta (12/3), os estudantes da UnB aprovaram a deflagração de uma campanha pelo afastamento imediato do reitor Timothy Mulholland. Segundo Danilo Silvestre, coordenador de Comunicação do DCE, a campanha também pedirá o afastamento imediato dos conselheiros diretos da FUB e dos diretores da Editora UnB.

Os estudantes também querem o confisco dos bens do apartamento funcional de Mulholland, com reversão para a Casa do Estudante e a abertura e apreciação de todas as contas da universidade. Além disso, não descartam a ocupação da universidade.

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