Nº 40 - Brasília, 20 de março de 2008
 

ENTREVISTA
Seminário dará início ao processo de atualização do Caderno 2 do ANDES-SN, que será concluído no 28º Congresso

Por Elizângela Araújo
ANDES-SN

Na próxima semana, entre os dias 28 e 30 de março, será realizado o Seminário Nacional de Atualização do Caderno 2 – Propostas do ANDES-SN para a universidade brasileira (clique na imagem para ver a programação), na sede do Sindicato Nacional, em Brasília. A professora Tânia Batista, 2ª vice-presidente Regional Nordeste I do Sindicato Nacional e membro do Grupo de Trabalho Política Educacional - GTPE, explica que esse é apenas o início do processo de atualização do "documento basilar" do ANDES, que se estenderá durante todo este ano e será concluído no 28º Congresso, a ser realizado em Pelotas-RS, em 2009. Seguindo o princípio democrático que norteou a elaboração da publicação, essa terceira atualização também terá a participação dos docentes.

O Caderno 2 sistematiza a proposta do movimento docente para a universidade brasileira e começou a ser construído em 1981, quando docentes de todo o país participaram de diversos seminários organizados. Construído a partir de intensos debates que envolveram não só a comunidade acadêmica, mas também diversos setores da sociedade organizada, como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, Ordem dos Advogados do Brasil – OAB e Associação Brasileira de Imprensa – ABI, foi finalmente lançado em 1986. Até hoje, passou por duas atualizações – em 1996 e em 2003, em função das mudanças ocorridas na universidade brasileira, em particular, e na sociedade.

Cinco anos depois, durante os quais ocorreram várias mudanças estruturais, tanto na sociedade brasileira quanto na educação superior, o movimento docente inicia a discussão que culminará numa nova atualização. O processo, explica a professora Tânia na entrevista a seguir, considerará não apenas os temas já presentes.

- O seminário que começa na próxima semana dará início ao processo de atualização do Caderno 2, como esse trabalho será conduzido e quais serão as etapas até sua conclusão?
- Bom, o 27º Congresso do ANDES-SN aprovou que deveríamos dar curso à atualização do Caderno 2 seguindo algumas etapas. A primeira delas, segundo essa deliberação, é que devemos realizar um evento de caráter nacional para dar início ao debate. O Caderno 2 é bem mais amplo do que esses temas, e é importante destacar que esse é um primeiro momento e que haverá outros momentos de atualização dessa que é uma publicação muito importante para o Sindicato Nacional, porque sistematiza, condensa os princípios básicos que orientam a luta do sindicato e a luta em defesa da educação e da universidade pública. Esse Seminário Nacional terá quatro mesas-redondas com pessoas que têm produção acadêmica sobre esse tema e têm dado uma contribuição relevante em relação a esse debate, seja como diretores ou como presidentes de seções sindicais, seja como militantes, e não apenas no movimento sindical docente, mas também de movimentos sociais. Nossa intenção é aprofundar o debate para, a partir daí, colhermos subsídios que nos auxiliem na atualização.

- E quais são esses temas que o Seminário abordará?
- Na sexta-feira à noite haverá abertura com uma mesa composta com os coordenadores dos GTs que estão encaminhando essa atualização – Política Educacional; Ciência e Tecnologia; Verbas, Fundações; e Etnia, Gênero e Classe – que falarão sobre como cada um desses GT pretende contribuir ou tem contribuído com a atualização do Caderno 2. No sábado pela manhã, teremos uma mesa sobre autonomia universitária, com a presença dos professores Roberto Leher (UFRJ e ADUFRJ) e Francisco Miraglia Netto (USP e Ex-presidente da ADUSP). A idéia dessa mesa é discutir a questão da autonomia, principalmente na conjuntura como a que vivemos, em que projetos como o REUNI, por exemplo, são aprovados sem discussão com a comunidade universitária.

No sábado à tarde, teremos uma discussão sobre gestão democrática, que se relaciona com autonomia. Ou seja, os temas estão interligados, pois queremos discuti-los de maneira organizada. Esse debate sobre a gestão trará a contribuição dos professores Ângela Carvalho de Siqueira (UFF) e Luis Henrique Schuch (UFPel e Secretário Geral do ANDES-SN), além do estudante Thiago Arruda, representante Estudantil no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão - CEPE da UFC. Ele foi uma das lideranças do processo de ocupação da reitoria da UFC na luta contra o REUNI. Há todo um questionamento da forma como as universidades são geridas hoje, do fato de não haver democracia no âmbito desses órgãos colegiados que têm por responsabilidade a gestão. Então, é importante também discutir a gestão de uma maneira mais ampla, enquanto algo que pode ser compartilhado com toda a comunidade universitária.

No domingo pela manhã, teremos uma mesa sobre a democratização do acesso e permanência, com a participação dos professores Lisete Regina Gomes Arelaro (USP), Mavi Pacheco Rodrigues (UFRJ) e Leon Diniz Lima Jr., que é professor de Geografia de alguns cursos pré-vestibulares comunitários do Rio de Janeiro e tem feito um debate sobre a democratização do acesso, que na nossa leitura não se reduz à questão das cotas, é muito mais amplo, e também está vinculada às políticas afirmativas. Entendemos que esse é um debate muito importante e que está relacionado também com a política de assistência estudantil, pois não adianta o aluno ter acesso à universidade sem ter a possibilidade de permanecer lá.

No domingo à tarde, teremos um debate sobre financiamento da educação, com o professor Jorge Abrahão de Castro (UnB – IPEA). Em seguida, o professor Luis Allan Künzle (UFPR e coordenador do GTC&T do ANDES-SN) fará uma discussão específica sobre financiamento da educação superior, com ênfase na discussão das políticas de Ciência e Tecnologia hoje em curso. O professor Sadi Dal Rosso (UnB e Ex-Presidente do ANDES-SN) falará sobre financiamento sob o viés da crítica às fundações de apoio, que ainda hoje são vistas por grande parte das pessoas como uma fonte privilegiada de financiamento das universidades. Sabemos que as fundações não representam isso, pelo contrário, aproveitam-se da estrutura pública, da imagem e dos recursos das IFES para beneficiar alguns que estão à sua frente. Então, como se pode perceber, a idéia é fazer uma ampla discussão sobre o financiamento, pois sabemos que todas as políticas para o ensino superior, por mais bem elaboradas e bem intencionadas que sejam, se não tiverem um financiamento próprio para serem executadas, não poderão cumprir os objetivos aos quais se dispõem.

- Como se dará a participação dos docentes nesse processo de atualização?
- Eles participarão nessas etapas em que sua contribuição será requisitada, seja nos grupos de trabalho ou nos debates que as seções sindicais venham a realizar, seja nas reuniões nacionais. É importante essa participação porque esse processo não é só de atualização do Caderno 2, mas é também pedagógico e visa a fazer com que as pessoas reflitam o quanto o Caderno 2 é importante para a constituição do ANDES-SN e o quanto é um instrumento muito dinâmico frente à realidade, pois há vários temas que ainda não estão contemplados nele mas que deverão estar, e estamos trabalhando para desenvolvê-los, como, por exemplo, educação a distância, formação de professores, política de educação, de pós-graduação etc. Acredito que esse Seminário será um ótimo começo desse trabalho de aperfeiçoamento do Caderno 2, que é também de aperfeiçoamento do trabalho que o ANDES-SN tem desenvolvido.

- A última edição do Caderno 2 saiu em outubro de 2003. Além do REUNI, quais os fatos relevantes, ocorridos nesse período, que influenciarão a atualização da publicação?
- Esse processo de atualização se pauta numa sistematização do que já discutimos e aprovamos em outras instâncias de deliberação do sindicato. Então, as questões são as mais diversas possíveis. Hoje, o governo federal, de certa maneira, avança na perspectiva de implementação de sua política para o ensino superior. A reforma universitária, hoje, está sendo fatiada, vem sendo feita aos poucos. A questão do SINAES, da própria UAB - Universidade Aberta do Brasil e da educação a distância – que tem ganhado muita força nas universidades, mudando inclusive as matrizes curriculares de vários cursos, as mudanças que estão sendo feitas na CAPES. Também há a questão da expansão do ensino superior, só que feita de maneira desqualificada. Além disso, a gente percebe a continuidade do avanço da privatização do ensino através da ampliação da rede privada. Então, o processo de mercantilização da educação, que vem pari passu com as reformas neoliberais, aprofundam cada vez mais esse sucateamento da universidade pública, capitaneado pelo governo federal por meio de suas reformas políticas.

Outra questão relevante é o paradigma de financiamento da universidade, que está sempre vinculado a determinadas metas que muitas vezes não respeitam a autonomia universitária. Esse padrão é muito danoso para o desenvolvimento da universidade pública com bom qualidade, que pressupõe essa autonomia. Sem essa autonomia, a universidade fica limitada ao que os órgãos que a financiam indicam o que ela deve fazer. Então, esse processo de aprofundamento da privatização, da implementação dessas políticas neoliberais, dá à universidade um desenho que precisa ser repensado pelo ANDES-SN. Eu diria até que já temos feito isso, mas o Caderno 2 vai materializar reflexões que já temos realizado ao longo desses últimos cinco anos.

- Qual a importância da atualização do Caderno 2 nesse momento em que o ANDES-SN tem atuado mais intensamente em conjunto com outros sindicatos e movimentos sociais?
- O ANDES-SN sempre foi referência para os movimentos sociais e outras entidades. A capacidade de formulação teórica e política do Sindicato Nacional sempre conquista muito respeito, e isso não é à toa. O ANDES é um patrimônio da sociedade brasileira, porque suas contribuições são muito importantes para a concretização de um movimento sindical combativo, classista e de luta. O Caderno 2, de certa maneira, reflete isso, pois é, ao mesmo tempo, um cartão de visitas e um instrumento de lutas. Temos, sim, uma proposta para a universidade brasileira. Temos princípios que orientam essa proposta. Temos políticas específicas que podem materializar uma educação superior com a qualidade que queremos, e o Caderno 2 é prova disso. Hoje, as articulações do ANDES-SN com os movimentos sociais também precisam ser fortalecidas, e isso tem acontecido. Temos estabelecido diálogos com outras entidades no sentido de retomar uma articulação, como a ANPED, ANFOP, ANDE, CEDE, que são algumas das outras entidades que também representam essa luta pela educação pública. Então, nesse sentido, atualizar o Caderno 2 é algo muito importante porque essas outras entidades também têm nele uma referência em termos de ensino superior, de uma proposta que realmente atenda as necessidades, demandas e anseios da população na perspectiva da classe trabalhadora. Nosso objetivo é poder atualizar, divulgar e continuar realizando essa interlocução com outros segmentos e com outras entidades da sociedade civil para que possamos avançar na construção de um projeto de universidade pública gratuita, laica e socialmente referenciada.

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