Nº 40 - Brasília, 20 de março de 2008
 

OPINIÃO
Meio à quebradeira - nós e eles

O quadro internacional que se desenha se aproxima da crise que se desdobrará na Primeira Guerra (1914-1918), pondo um ponto final na Belle Époque

Editorial Brasil de Fato (ed. 265)

Não sejamos alarmistas.

No entanto, não há dúvida que a situação econômica dos Estados Unidos degringola em ritmo acelerado. Aliás, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Khan, já afirmou no dia 17 que “a crise do mercado finaceiro global piora a olhos vistos”, e que “o risco de contágio está aumentando”.

O mais recente alarme foi a quebra do Bear Stearns, sustada pela sua “compra” a preço de banana pela concorrente JP Morgan – obviamente com dinheiro do Federal Reserve (Fed – o banco central dos EUA). As bolsas do mundo inteiro despencaram e a insegurança tomou conta dos mercados.

As instituições e fontes estadunidenses procuram ser discretas e exalar um certo relativismo frente à situação. O presidente George W. Bush, também no dia 17, depois de afirmar que seu governo faz e fará o que for necessário para sair da crise e anunciar que já tomou “medidas decisivas”, comentou: “Uma coisa é certa: passaremos por momentos difíceis”. A Europa é bem menos otimista. O jornal Independent (Inglaterra) tratou a questão com o título de “Wall Street teme a próxima Grande Depressão”, referindo-se à crise de 1929.

Em todo caso, para nós – no Brasil – o termômetro mais preciso é a declaração do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Sempre discreto e conciso, nada versado em declações bombáticas, o ministro Mantega, referindo-se à crise dos EUA, se permitiu declarar que “A cada dia ela parece maior”, acrescentando: “Alguns já começam a falar numa crise parecida com a de 29”.

Para os trabalhadores, a política deve ser o centro da discussão

Embora as comparações históricas sejam sempre perigosas, concordamos, do ponto de vista estritamente econômico, que a atual crise apresenta traços que se assemelham à quebra de 1929. A esse respeito, já publicamos artigo em nossa edição 257.

Porém, do ponto de vista político (política = luta de classes), o quadro internacional que se desenha se aproxima muito mais da crise que se desdobrará na Primeira Guerra (1914-1918), pondo um ponto final na Belle Époque. E é isto que interessa fundamentalmente. Pelo menos, a nós – trabalhadores e povo.

Vejamos:
A crise de 1929, que desembocará na tragédia de 1939-1945, acontece num momento em que as organizações e movimentos de trabalhadores e do povo se encontravam relativamente ativos e articulados internacionalmente. Fosse nos países centrais do capitalismo, fosse nos da sua periferia.

Mais que tudo – independentemente das críticas aos rumos já então tomados pela Revolução de Outubro de 1917 – existia a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que referenciava e alimentava essas lutas. A URSS era, não apenas uma grande potência militar e política (contanto com o apoio de partidos comunistas que se multiplicavam por todo o mundo), como foi peça chave para a derrota dos nazi-fascistas, para não falarmos das resitências dirigidas por comunistas em toda a Europa. Aliás, hoje sabemos de sobra que o famoso – ainda que atabalhoado – Desembarque da Normandia aconteceu naquele instante, exatamente para se contrapor ao avanço do Exército Vermelho no front Oriental, que já se encontrava às portas de Berlim, e que poderia – sem o citado desembarque – chegar a Paris.

O século 20 e a Segunda Belle Époque
Já a crise do início do século 20, acontece em contexto diverso.

Após a guerra Franco-Prussiana (1870-1871), pacificado o continente Europeu, o capital e os impérios entram numa fase de desenvolvimento que lhes parecia eterno. Embora florescessem movimentos proletários de inspiração socialista, articulados em torno da 2ª Internacional, nada se assemelhava à Primavera dos Povos de 1848, quando revoluções eclodiram em vários países, das quais é emblemática a Comuna de Paris. Por sinal, a fragilidade dos partidos social-democratas ficará exposta, como uma fratura, em 1914, quando muitos deles votarão, nos parlamentos dos seus respectivos países, os créditos de guerra, aderindo ao discurso belicista-patrioteiro das elites. Por outro lado, a experiência de um Estado socialista só acontecerá a partir de 1917.

Assim, esse período das últimas décadas do século 19 até 1914, quando tudo parecia funcionar bem ad eternum para o capital, nenhuma expressão o caracterizaria melhor que Belle Époque. Mas, como sempre, uma bela época para o capital.

Assim, esse período, das últimas décadas do século 20 até o final desta primeira década do século 21, quando tudo parecia funcionar bem ad eternum para o capital, nenhuma expressão o caracteriza melhor que A Segunda Belle Époque. Como a primeira em 1914, esta Segunda Belle Époque parece encontrar o seu fim.

Nossa política e nossas tarefas

Embora a discussão econômica seja importante para entendermos e localizarmos os pontos fracos da cadeia, visando avançar em nossas conquistas, mais que isto ela não nos é necessária: não cumpre aos trabalhadores e ao povo, nem às suas organizações e movimentos ou aos seus partidos discutir uma saída para o capital.

Cumpre-nos, isto sim, no quadro político (= da luta de classes) internacional hoje, onde as organizações e movimentos de trabalhadores e do povo, na maioria dos países – especialmente nos centrais – se encontram em refluxo e/ou são pouco expressivos; quando a partir da Queda do Muro (1989) se desmontou qualquer possibilidade de freio, em termos de Estados, às ambições dos EUA; definirmos uma política e construirmos os instrumentos necessários para a disputa da hegemonia quando se desorganize a economia capitalista.

De qualquer modo, haja o que houver, aconteça o que acontecer, a bandeira da Paz Internacional jamais poderá ser negociada.

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