Nº 41 - Brasília, 27 de março de 2008
 

CAMPANHA SALARIAL 2007/2008
Governo desrespeita docentes e impõe propostas inaceitáveis

Por Elizângela Araújo
ANDES-SN


A centralidade da discussão sobre a campanha salarial 2007/2008 dos docentes das IFES gira em torno da não compensação das perdas salariais sofridas ao longo dos últimos anos, associada à imposição de distorções profundas na estrutura remuneratória que resultarão, a curto prazo, em novos prejuízos aos docentes e ao desenvolvimento das atividades acadêmicas. Mas em todo esse processo, se destaca o tratamento que o governo tem dispensado à categoria.

Depois de anunciar solenemente o esvaziamento da Mesa Nacional de Negociações Permanente, o mesmo governo que a criou com estardalhaço de mídia e a assinatura de nove ministros, passou a propugnar as negociações em separado.

A “negociação” começou tardiamente. O ANDES-SN entregou a pauta de reivindicações à Secretaria de Ensino Superior - SESU do MEC em 9 de maio de 2007. Exatamente três meses depois, por pressão do Sindicato Nacional, foi realizada a primeira reunião. Desde então, o processo foi marcado por imposições e falta de interesse pelas reivindicações dos docentes por parte do governo.

Logo no início, foi imposta a separação do debate entre as duas carreiras das IFES - ensino superior e de 1º e 2º grau. Em dezembro, o governo encerrou as reuniões sobre as reivindicações dos docentes do ensino superior unilateralmente, propondo a assinatura de um termo de acordo que, sendo prejudicial à estrutura remuneratória e incapaz de compensar as perdas decorrentes da corrosão salarial, não atende às reivindicações dos docentes.

Assim, o início da discussão das reivindicações dos docentes de 1º e 2º grau já se deu tardiamente. Somente no dia 27 de fevereiro, foi apresentado o documento "Carreira do Magistério da Educação Básica, Profissional e Tecnológica: Subsídios para a implementação do Termo de Compromisso". A proposta de tabela salarial foi apresentada ainda mais tarde: no dia 16 de março. Ambos os documentos desconsideram totalmente a proposta entregue pelo Sindicato Nacional em dezembro, da qual o governo nem sequer tomou conhecimento, fato constatado a partir de posicionamentos de representantes nas reuniões subseqüentes.

Na última reunião, realizada na semana passada (20/3), Nelson Luiz Oliveira de Freitas, diretor do Departamento de Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento, destratou os representantes do ANDES-SN que, juntamente com os representantes do SINASEFE, solicitaram mais tempo para que suas bases analisassem a proposta que o governo queria impor por meio da assinatura de um termo de acordo.

Contraditoriamente, depois de tantos meses de protelações por sua exclusiva responsabilidade, nessa última reunião, o Ministério do Planejamento não aceitou a proposta de calendário apresentada pelo ANDES-SN e corroborada pelo representante do SINASEFE, que solicitava duas semanas de prazo para que suas bases analisassem a proposta apresentada pelo governo.

Portanto, durante todo o processo de negociação, ficou clara a postura intransigente do governo, que nesse caminho contou com sua força auxiliar – uma entidade de carimbo que tem alardeado ganhos irreais, já que a proposta do governo não compensa sequer a inflação. "A função do Proifes é dourar a pílula, e os professores não podem se deixar enganar por informações que não condizem com a realidade", diz Paulo Rizzo, Presidente do ANDES-SN.

Gratificações
Em vez de fortalecer o vencimento básico, o governo apresentou, para as duas carreiras, medidas que resultam em crescimento relativo das gratificações e na ampliação de seu poder de manipulá-las. “De sorte que, em 2010, a incorporação da GAE já teria sido “compensada” negativamente por medidas como a transformação do incentivo de titulação em gratificação e não mais em percentuais relativos aos vencimentos básicos e por aumentos na GED e na GEAD, em valores que não seguem qualquer critério” diz Rizzo.

Governo tenta justificar arrocho salarial com a perda da CPFM
O economista José Menezes Gomes, 3º tesoureiro do ANDES-SN, lembra que a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira – CPMF não se destinava às despesas com a folha de pagamento dos servidores da União e, nem mesmo na saúde, era aplicada. “Prova disso é que, nos anos em que esse imposto existiu, não houve vinculação entre ele e os reajustes salariais”. Por outro lado, mesmo sem a CPMF, a arrecadação bate recorde em 2008. Menezes lembra que as perdas salariais dos servidores públicos não foram compensadas, mas o governo cumpriu todos os acordos feitos com os “rentistas” (leia entrevista).

Mobilização nacional
Por isso, a reunião do setor das IFES (16 e 17 de março) conclamou os docentes à construção de uma greve nacional e à participação na semana de mobilizações, a ser realizada entre os dias 31 de março e 4 de abril. Os protestos terão ênfase no dia 1º de abril, popularmente conhecido como dia da mentira, quando deverão paralisar as atividades.

A mobilização será uma forma de pressionar o governo a restabelecer as negociações salariais devido às distorções nas carreiras do ensino superior e de 1º e 2º grau que suas propostas promovem. “Apesar de uma das poucas concordâncias entre as partes na mesa de negociações ter sido a valorização do vencimento básico em detrimento das gratificações, o governo tenta impor a permanência do peso elevado dessas últimas na remuneração dos docentes”, complementa Paulo Rizzo.

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