Nº 43 - Brasília, 10 de abril de 2008
 

ENTREVISTA
Guerra contra as drogas é uma cortina de fumaça


Por Max Costa
Assessor de Imprensa da ADUFPA


Sob a justificativa de combater as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o governo colombiano, recentemente, mandou bombardear o território equatoriano. O ataque foi apenas mais um capítulo deste conflito político, cujo palco se transformou a América Latina. De tradicional colônia dos Estados Unidos e dos grandes países capitalistas, a região passou a ser um foco de resistência às investidas imperialistas.

Para falar sobre o assunto, a ADUFPA entrevistou o professor-doutor da UFPA aposentado, Aluísio Leal. Doutor em Economia com diversos estudos sobre a Amazônia e os conflitos na América Latina, Aluísio afirma que “os Estados Unidos usam, então, a chamada guerra contra as drogas como uma cortina de fumaça, para esconder os objetivos da geopolítica norte-americana para essa área amazônica, já que nessa área se concentra um enorme recurso energético”. Confira:

Jornal ADUFPA – Recentemente, a geopolítica latino-americana foi movimentada com a crise diplomática envolvendo a Colômbia, o Equador e a Venezuela. O que está por trás deste novo conflito?
Aluísio Leal –
É preciso ver, hoje, o papel geopolítico da Colômbia nessa parte da América do Sul, particularmente na área amazônica. A Colômbia pode ser considerada um verdadeiro Estado tampão, que é aquele que representa uma espécie de cunha contra a possibilidade de rebeldia em uma área que se pretende manter sob controle. E esse Estado tampão, normalmente, é muito mais armado que os Estados que existem ao redor dele, podendo, rapidamente, se transformar em plataforma de agressão contra os outros. Isto acontece associado a dois grandes problemas. Primeiramente, o processo claramente fragmentado de poder geopolítico dos Estados Unidos sobre o mundo, que atingiu o auge durante a Guerra Fria, mas que hoje começa a ficar claramente definhado. O segundo problema decorre do fator agravante da crise capitalista iniciada na década de 70, que é exatamente a alma do sistema capitalista, a fonte da qual o sistema extrai a possibilidade de continuar produzindo e acumulando capital, que é a energia. O petróleo chegou com um peso energético extraordinário, pois detém a capacidade de um poder calorífico muito grande, o que o transformou na fonte mais estratégica de energia necessária para mover a máquina de produção capitalista. Com a desaparição do petróleo, começa a surgir no horizonte um problema seriíssimo, de que não só o capital possa continuar tendo a sua sobrevida pela existência das fontes energéticas necessárias a mover a produção, como também a de ter a necessidade absoluta de controlar todas as fontes energéticas que existam dentro do planeta. Os Estados Unidos usam, então, a chamada guerra contra as drogas como uma cortina de fumaça, para esconder os objetivos da geopolítica norte-americana para essa área amazônica, já que nela se concentra um enorme recurso energético, que os Estados Unidos não querem deixar de controlar.

JA – A saída de cena de Fidel Castro mudou esse cenário político latino-americano?
AL –
Isso é mais uma assuada do que outra coisa. A maior liderança política latino-americana, hoje, concretamente falando, é o Hugo Chavez. Mas o Fidel tem o mérito de ser o ícone histórico da resistência libertária dos povos latino-americanos e isso ninguém tira dele. É um mérito histórico que está definitivamente associado à figura dele. No dia em que pudermos escrever a verdadeira história, a figura de Fidel vai ganhar a extraordinária dimensão que ela tem. A saída dele é apenas uma espécie de aposentadoria, que nada muda em relação ao sistema cubano, até porque o Raul Castro é uma pessoa que dá continuidade a todos os propósitos da Revolução Cubana. O que pode haver são pequenas mudanças, mas apenas de estilo.

JA – As atenções norte-americanas estariam voltadas então para a Venezuela de Hugo Chavez?
AL –
A Venezuela atrai atenção, em primeiro lugar, porque ela abriga extraordinárias jazidas petrolíferas. Em segundo, porque o Chavez surge, de forma absolutamente inesperada, conduzindo uma luta de resistência contra a ação do imperialismo. Além das três grandes leis que ele promulgou logo depois de tomar posse, as leis de terras, de pesca e dos hidrocarbonetos, que foram fundamentais para o acesso aos espaços econômicos que eram negados historicamente ao povo venezuelano, agora, ele tem outras propostas com alcance continental. A questão do Banco do Sul é uma. A proposta do mega-gasoduto, que garantiria o suprimento de petróleo aos países latino-americanos é outra. A participação dele na Alternativa Boliviana para os Povos da América (Alba), junto com Cuba, Bolívia, Equador, e com a perspectiva de adesão do Haiti é uma outra. E, também, o fato de que ele hoje propõe um desligamento, uma ruptura concreta com a hegemonia do mando norte-americano sobre as forças militares dos países da América do Sul. Isso é um negócio interessantíssimo, até porque ele propõe a criação de uma força sul-americana de paz dos países da região, sem a ingerência dos Estados Unidos, enquanto a tentativa norte-americana sempre foi de manter as forças armadas destes países sob os esquemas de hierarquia e ordem de comando dos Estados Unidos. O Chavez propõe que seja rompida essa relação. É, por isso, que hoje temos uma imprensa ferocíssima atacando Chavez de todas as maneiras. E estes fatores são um atentado flagrante de que os Estados Unidos, como país capitalista, como o dono deste quintal chamado América do Sul, já percebeu que começa a haver uma fissura seriíssima na estrutura do poder dele sobre o continente.

JA – E o que seria o socialismo do século XXI proposto por Chavez?
AL –
É uma coisa impossível de se definir. O que se pode acreditar é que não há outra alternativa, a não ser a saída socialista. Não podemos dizer que já sabemos o que queremos, mas é certo que já sabemos o que não queremos. E o que não queremos é a continuidade de um sistema cujos resultados históricos estão aí com 500 anos de colonização e, sobretudo, hoje, agravados brutalmente por essa crise do capitalismo, que hoje adquire uma conotação destrutiva terrível, destruindo a natureza em nome da sobrevivência do capital.

JA – Alguns setores dos movimentos criticam Chavez ao dizer que ele não avança do discurso, pois não toma medidas práticas de enfrentamento com o capitalismo, inclusive, pagando a dívida externa. Isto procede?
AL –
Cuba também procedeu assim e a Revolução Cubana foi vitoriosa. Se alguém leu o Lênin, em “O Estado e a Revolução”, vai ver isso. O Lênin, quando a Rússia teve que se retirar da Primeira Guerra Mundial, apoiou, inteiramente, a assinatura do tratado de empréstimo de Tovski, que dava uma quantidade gigantesca de território da Rússia para os alemães, porque naquele momento essa concessão era inevitável. Se ela não fosse feita, seria muito pior para a Rússia em si e para o processo revolucionário, em particular. O Chavez não pode declarar uma guerra aberta aos Estados Unidos. O que ele faz é manter a dignidade da Venezuela como país e levar adiante uma proposta de unidade política dos povos latino-americanos, em nome da nossa necessidade de resistir ao imperialismo. Mas o Chavez sabe muito bem que seria suicídio tentar enfrentar um império que está em processo fragmentar, mas que ainda tem um poder destrutivo terrível, o que poderia levar esse império a uma agressão armada capaz de destruir o sonho antes que ele acontecesse. A proposta socialista qualquer um sabe qual é. É a eliminação das propriedades privadas dos meios de produção, é a administração coletiva dos meios de produção pelo Estado em nome da sociedade, e é a preparação do caminho para uma sociedade superior, evoluída em relação a ela, na qual até o Estado perde o papel que tem e é substituído por um poder político verdadeiramente popular. O socialismo do século XXI começa a ser construído a partir de uma proposta revolucionária. Hoje, não se faz mais revolução como a cubana. Você pode muito bem ganhar o poder através do voto, como foi ganho na Bolívia, no Equador e, particularmente, na Venezuela, e a partir daí, levar uma série de medidas que vem sendo historicamente reivindicadas pelas massas. Isso enfrenta uma resistência terrível. Na Bolívia, botaram um embaixador norte-americano especialista em separatismo, em divisionismo territorial e social, que é para ele conduzir, através da Embaixada americana, a proposta dos Estados chamados rebeldes, dos quais Santa Cruz é o mais feroz e o mais municiado, para acabar e fragmentar com a proposta política de uma Bolívia soberana.

JA – Esse projeto do socialismo do século XXI ainda tem força na Venezuela, após a derrota de Chavez no referendo?
AL –
Sim, com certeza. O que aconteceu na Venezuela foi uma acomodação das próprias camadas populares que se ausentaram da votação do Referendo. Os gringos têm um ditado que diz que de nada adianta os 95% do lado de lá, se os 5% do lado daqui estão organizados. Ora, a direita está organizadíssima na Venezuela, assim como está na Bolívia e no Equador. Então, essa direita que é a responsável local pela manutenção dessa terrível desigualdade que o colonialismo capitalista executa sobre os países periféricos, não vai descansar enquanto não eliminar os últimos resquícios de resistência a este colonialismo. É óbvio que, nessa questão do referendo da Venezuela, houve essa mancada. Mas isso não quer dizer que o movimento bolivariano tenha perdido o ímpeto, que a massa venezuelana tenha aberto mão do apoio dela ao Chavez. Se ela tivesse aberto mão, a direita já tinha tomado o poder, como ela tentou fazer com o golpe, e não conseguiu fazer isso até hoje.

JA – Podemos dizer que estamos diante de uma situação revolucionária na América Latina ou ainda estamos distante disso?
AL –
Não. Não podemos dizer que estamos na frente de uma situação revolucionária, pelo menos se não aparecer de pronto um fato histórico. Não vamos nos esquecer que um fato histórico é uma coisa que acontece de um momento para o outro e que muda as circunstâncias de forma admirável. Por exemplo, o Chavez na Venezuela foi um fato histórico. Ele começou em 1998 e, de lá para cá, o quadro político na América do Sul mudou extraordinariamente. A eleição do Evo Morales foi um outro fato histórico, que somou peso a uma proposta que estava começando a ser construída pela Venezuela. No Equador, as expectativas populares são tão extraordinárias, que chegaram a eleger o Gutierrez, que se apresentou como se fosse um Chavez lá, e começou imediatamente a passar para o lado dos americanos e a fazer parte do Plano Colômbia contra o movimento nacional em armas da Colômbia. O que podemos dizer é que hoje formatamos um quadro, que poderá conduzir não a um processo revolucionário localizado, mas será o fermento político das massas na América Latina, para que seja bem possível um quadro revolucionário continental.

JA – Nesse tabuleiro político, qual o papel do Lula?
AL –
O Lula é um neoliberal e nunca foi de esquerda. Aliás, o PT nunca foi um partido de esquerda. O que houve foi um partido de natureza sindicalista e que tinha como projeto político um sindicalismo parecido com o francês, com o italiano, guardados, obviamente, as devidas proporções. Então, todos os planos que estão sendo levados adiante pelo governo Lula, estão em inteira consonância com as expectativas da onda neoliberal e globalizante. O que estão querendo fazer é transformar o Brasil em uma potência, mas dentro deste quadro de circunstâncias, país nenhum será uma potência. A não ser que ele demonstre para o banco capitalista que tem tecnologia necessária para se somar à corrida armamentista, que ele seja um dos países influentes junto aos grandes ministérios imperialistas, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e que ele, efetivamente, tenha peso econômico nesse contexto. O Brasil não tem esse poderio.

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