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ENTREVISTA
Guerra contra as drogas é uma cortina de fumaça
Por Max Costa
Assessor de Imprensa da ADUFPA
Sob a justificativa de combater as Forças Armadas Revolucionárias
da Colômbia (FARC), o governo colombiano, recentemente, mandou bombardear
o território equatoriano. O ataque foi apenas mais um capítulo
deste conflito político, cujo palco se transformou a América
Latina. De tradicional colônia dos Estados Unidos e dos grandes
países capitalistas, a região passou a ser um foco de resistência
às investidas imperialistas.
Para falar sobre o assunto, a ADUFPA entrevistou o professor-doutor da
UFPA aposentado, Aluísio Leal. Doutor em Economia com diversos
estudos sobre a Amazônia e os conflitos na América Latina,
Aluísio afirma que “os Estados Unidos usam, então,
a chamada guerra contra as drogas como uma cortina de fumaça, para
esconder os objetivos da geopolítica norte-americana para essa
área amazônica, já que nessa área se concentra
um enorme recurso energético”. Confira:
Jornal ADUFPA – Recentemente, a geopolítica latino-americana
foi movimentada com a crise diplomática envolvendo a Colômbia,
o Equador e a Venezuela. O que está por trás deste novo
conflito?
Aluísio Leal – É preciso ver, hoje, o papel
geopolítico da Colômbia nessa parte da América do
Sul, particularmente na área amazônica. A Colômbia
pode ser considerada um verdadeiro Estado tampão, que é
aquele que representa uma espécie de cunha contra a possibilidade
de rebeldia em uma área que se pretende manter sob controle. E
esse Estado tampão, normalmente, é muito mais armado que
os Estados que existem ao redor dele, podendo, rapidamente, se transformar
em plataforma de agressão contra os outros. Isto acontece associado
a dois grandes problemas. Primeiramente, o processo claramente fragmentado
de poder geopolítico dos Estados Unidos sobre o mundo, que atingiu
o auge durante a Guerra Fria, mas que hoje começa a ficar claramente
definhado. O segundo problema decorre do fator agravante da crise capitalista
iniciada na década de 70, que é exatamente a alma do sistema
capitalista, a fonte da qual o sistema extrai a possibilidade de continuar
produzindo e acumulando capital, que é a energia. O petróleo
chegou com um peso energético extraordinário, pois detém
a capacidade de um poder calorífico muito grande, o que o transformou
na fonte mais estratégica de energia necessária para mover
a máquina de produção capitalista. Com a desaparição
do petróleo, começa a surgir no horizonte um problema seriíssimo,
de que não só o capital possa continuar tendo a sua sobrevida
pela existência das fontes energéticas necessárias
a mover a produção, como também a de ter a necessidade
absoluta de controlar todas as fontes energéticas que existam dentro
do planeta. Os Estados Unidos usam, então, a chamada guerra contra
as drogas como uma cortina de fumaça, para esconder os objetivos
da geopolítica norte-americana para essa área amazônica,
já que nela se concentra um enorme recurso energético, que
os Estados Unidos não querem deixar de controlar.
JA – A saída de cena de Fidel Castro mudou esse cenário
político latino-americano?
AL – Isso é mais uma assuada do que outra coisa.
A maior liderança política latino-americana, hoje, concretamente
falando, é o Hugo Chavez. Mas o Fidel tem o mérito de ser
o ícone histórico da resistência libertária
dos povos latino-americanos e isso ninguém tira dele. É
um mérito histórico que está definitivamente associado
à figura dele. No dia em que pudermos escrever a verdadeira história,
a figura de Fidel vai ganhar a extraordinária dimensão que
ela tem. A saída dele é apenas uma espécie de aposentadoria,
que nada muda em relação ao sistema cubano, até porque
o Raul Castro é uma pessoa que dá continuidade a todos os
propósitos da Revolução Cubana. O que pode haver
são pequenas mudanças, mas apenas de estilo.
JA – As atenções norte-americanas estariam
voltadas então para a Venezuela de Hugo Chavez?
AL – A Venezuela atrai atenção, em primeiro
lugar, porque ela abriga extraordinárias jazidas petrolíferas.
Em segundo, porque o Chavez surge, de forma absolutamente inesperada,
conduzindo uma luta de resistência contra a ação do
imperialismo. Além das três grandes leis que ele promulgou
logo depois de tomar posse, as leis de terras, de pesca e dos hidrocarbonetos,
que foram fundamentais para o acesso aos espaços econômicos
que eram negados historicamente ao povo venezuelano, agora, ele tem outras
propostas com alcance continental. A questão do Banco do Sul é
uma. A proposta do mega-gasoduto, que garantiria o suprimento de petróleo
aos países latino-americanos é outra. A participação
dele na Alternativa Boliviana para os Povos da América (Alba),
junto com Cuba, Bolívia, Equador, e com a perspectiva de adesão
do Haiti é uma outra. E, também, o fato de que ele hoje
propõe um desligamento, uma ruptura concreta com a hegemonia do
mando norte-americano sobre as forças militares dos países
da América do Sul. Isso é um negócio interessantíssimo,
até porque ele propõe a criação de uma força
sul-americana de paz dos países da região, sem a ingerência
dos Estados Unidos, enquanto a tentativa norte-americana sempre foi de
manter as forças armadas destes países sob os esquemas de
hierarquia e ordem de comando dos Estados Unidos. O Chavez propõe
que seja rompida essa relação. É, por isso, que hoje
temos uma imprensa ferocíssima atacando Chavez de todas as maneiras.
E estes fatores são um atentado flagrante de que os Estados Unidos,
como país capitalista, como o dono deste quintal chamado América
do Sul, já percebeu que começa a haver uma fissura seriíssima
na estrutura do poder dele sobre o continente.
JA – E o que seria o socialismo do século XXI proposto
por Chavez?
AL – É uma coisa impossível de se definir.
O que se pode acreditar é que não há outra alternativa,
a não ser a saída socialista. Não podemos dizer que
já sabemos o que queremos, mas é certo que já sabemos
o que não queremos. E o que não queremos é a continuidade
de um sistema cujos resultados históricos estão aí
com 500 anos de colonização e, sobretudo, hoje, agravados
brutalmente por essa crise do capitalismo, que hoje adquire uma conotação
destrutiva terrível, destruindo a natureza em nome da sobrevivência
do capital.
JA – Alguns setores dos movimentos criticam Chavez ao dizer
que ele não avança do discurso, pois não toma medidas
práticas de enfrentamento com o capitalismo, inclusive, pagando
a dívida externa. Isto procede?
AL – Cuba também procedeu assim e a Revolução
Cubana foi vitoriosa. Se alguém leu o Lênin, em “O
Estado e a Revolução”, vai ver isso. O Lênin,
quando a Rússia teve que se retirar da Primeira Guerra Mundial,
apoiou, inteiramente, a assinatura do tratado de empréstimo de
Tovski, que dava uma quantidade gigantesca de território da Rússia
para os alemães, porque naquele momento essa concessão era
inevitável. Se ela não fosse feita, seria muito pior para
a Rússia em si e para o processo revolucionário, em particular.
O Chavez não pode declarar uma guerra aberta aos Estados Unidos.
O que ele faz é manter a dignidade da Venezuela como país
e levar adiante uma proposta de unidade política dos povos latino-americanos,
em nome da nossa necessidade de resistir ao imperialismo. Mas o Chavez
sabe muito bem que seria suicídio tentar enfrentar um império
que está em processo fragmentar, mas que ainda tem um poder destrutivo
terrível, o que poderia levar esse império a uma agressão
armada capaz de destruir o sonho antes que ele acontecesse. A proposta
socialista qualquer um sabe qual é. É a eliminação
das propriedades privadas dos meios de produção, é
a administração coletiva dos meios de produção
pelo Estado em nome da sociedade, e é a preparação
do caminho para uma sociedade superior, evoluída em relação
a ela, na qual até o Estado perde o papel que tem e é substituído
por um poder político verdadeiramente popular. O socialismo do
século XXI começa a ser construído a partir de uma
proposta revolucionária. Hoje, não se faz mais revolução
como a cubana. Você pode muito bem ganhar o poder através
do voto, como foi ganho na Bolívia, no Equador e, particularmente,
na Venezuela, e a partir daí, levar uma série de medidas
que vem sendo historicamente reivindicadas pelas massas. Isso enfrenta
uma resistência terrível. Na Bolívia, botaram um embaixador
norte-americano especialista em separatismo, em divisionismo territorial
e social, que é para ele conduzir, através da Embaixada
americana, a proposta dos Estados chamados rebeldes, dos quais Santa Cruz
é o mais feroz e o mais municiado, para acabar e fragmentar com
a proposta política de uma Bolívia soberana.
JA – Esse projeto do socialismo do século XXI ainda
tem força na Venezuela, após a derrota de Chavez no referendo?
AL – Sim, com certeza. O que aconteceu na Venezuela foi
uma acomodação das próprias camadas populares que
se ausentaram da votação do Referendo. Os gringos têm
um ditado que diz que de nada adianta os 95% do lado de lá, se
os 5% do lado daqui estão organizados. Ora, a direita está
organizadíssima na Venezuela, assim como está na Bolívia
e no Equador. Então, essa direita que é a responsável
local pela manutenção dessa terrível desigualdade
que o colonialismo capitalista executa sobre os países periféricos,
não vai descansar enquanto não eliminar os últimos
resquícios de resistência a este colonialismo. É óbvio
que, nessa questão do referendo da Venezuela, houve essa mancada.
Mas isso não quer dizer que o movimento bolivariano tenha perdido
o ímpeto, que a massa venezuelana tenha aberto mão do apoio
dela ao Chavez. Se ela tivesse aberto mão, a direita já
tinha tomado o poder, como ela tentou fazer com o golpe, e não
conseguiu fazer isso até hoje.
JA – Podemos dizer que estamos diante de uma situação
revolucionária na América Latina ou ainda estamos distante
disso?
AL – Não. Não podemos dizer que estamos na
frente de uma situação revolucionária, pelo menos
se não aparecer de pronto um fato histórico. Não
vamos nos esquecer que um fato histórico é uma coisa que
acontece de um momento para o outro e que muda as circunstâncias
de forma admirável. Por exemplo, o Chavez na Venezuela foi um fato
histórico. Ele começou em 1998 e, de lá para cá,
o quadro político na América do Sul mudou extraordinariamente.
A eleição do Evo Morales foi um outro fato histórico,
que somou peso a uma proposta que estava começando a ser construída
pela Venezuela. No Equador, as expectativas populares são tão
extraordinárias, que chegaram a eleger o Gutierrez, que se apresentou
como se fosse um Chavez lá, e começou imediatamente a passar
para o lado dos americanos e a fazer parte do Plano Colômbia contra
o movimento nacional em armas da Colômbia. O que podemos dizer é
que hoje formatamos um quadro, que poderá conduzir não a
um processo revolucionário localizado, mas será o fermento
político das massas na América Latina, para que seja bem
possível um quadro revolucionário continental.
JA – Nesse tabuleiro político, qual o papel do Lula?
AL – O Lula é um neoliberal e nunca foi de esquerda.
Aliás, o PT nunca foi um partido de esquerda. O que houve foi um
partido de natureza sindicalista e que tinha como projeto político
um sindicalismo parecido com o francês, com o italiano, guardados,
obviamente, as devidas proporções. Então, todos os
planos que estão sendo levados adiante pelo governo Lula, estão
em inteira consonância com as expectativas da onda neoliberal e
globalizante. O que estão querendo fazer é transformar o
Brasil em uma potência, mas dentro deste quadro de circunstâncias,
país nenhum será uma potência. A não ser que
ele demonstre para o banco capitalista que tem tecnologia necessária
para se somar à corrida armamentista, que ele seja um dos países
influentes junto aos grandes ministérios imperialistas, como a
Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário
Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e que ele, efetivamente, tenha
peso econômico nesse contexto. O Brasil não tem esse poderio.
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