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1968
Do maio francês à resistência no mundo
Por Fritz R. Nunes
SEDUFSM
Fotos de Nicholas Fonseca
Apesar de o maio francês ser uma data emblemática, quando são recuperados os acontecimentos do ano de 1968, a percepção, segundo o professor de Filosofia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), João Quartim de Moraes, é de que há convergência dos diversos movimentos em torno do mundo, mas cada um com suas especificidades. No Brasil, por exemplo, ele considera que o Movimento Estudantil teve um processo de mobilização intenso que passa pelo ano de 1967 e adentra 1968, radicalizando-se a partir do assassinato pela PM do estudante Edson Luís de Lima Souto, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Entretanto, a ascensão dos protestos contra a ditadura militar foi sufocada no dia 13 de dezembro de 1968, com a decretação do Ato Institucional n° 5.
Quartim de Moraes falou na manhã da sexta-feira 16/5, juntamente com Antonio Carlos Mazzeo, professor de Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Marília-SP. Ambos participaram da edição do Cultura na Seção Sindical dos Docentes da Universidade Federal de Santa Maria - SEDUFSM, que teve como tema “Maio de 1968, 40 anos depois”, com a presença de mais de 100 pessoas, a maioria estudantes, e transcorreu no Anfiteatro Gulerpe, campus da UFSM. A coordenação dos trabalhos ficou por conta do professor do curso de História da UFSM, Diorge Konrad, que também é presidente do sindicato docente.
Para Mazzeo, o movimento de 68 deve ser compreendido dentro de uma conjuntura a partir do pós-guerra, em que o capitalismo dava um salto em seu desenvolvimento em função da reconstrução dos países destruídos durante a Segunda Guerra Mundial. Começa aí o processo de “reestruturação produtiva”, que afeta profundamente o cotidiano do operariado europeu, explicou ele. Paralelamente a isso, se reflete no mundo a luta anti-colonial na África e na Argélia, a Revolução Cubana, a Guerra do Vietnã e o êxito da Revolução Cultural chinesa. É essa série de acontecimentos, segundo Mazzeo, que gerou o caldo de cultura para o maio de 68 na França. Soma-se a isso também aspectos de mudanças insuflados pela “contracultura”, a emergência do rock and roll. Entretanto, ressalta o professor da Unesp, aqueles que construíram a rebelião estudantil francesa, que acabou ganhando apoio dos trabalhadores, gerando uma greve geral que parou a França e pôs em xeque o governo de Charles de Gaulle, não integravam uma estrutura monolítica.
“Havia núcleos bastante distintos”, destacou Mazzeo. Segundo ele, desde os integrantes de partidos de esquerda, entre os quais, do Partido Socialista e do Partido Comunista, até um núcleo importante de lideranças estudantis “libertárias”, que não tinha raízes no movimento de trabalhadores, a exemplo de Daniel Cohn-Bendit (Dany, Le Rouge - o ‘Vermelho’). Inspirados por teóricos como Herbert Marcuse (filósofo da Escola de Frankfurt) e Alain Touraine (sociólogo francês), esses jovens diziam que os estudantes eram os verdadeiros “agentes da revolução”, e não mais a classe operária. Alguns deles chegaram a apedrejar grupos de trabalhadores, por considerar que estes haviam obtido conquistas econômicas que os haviam transformado em pequeno-burgueses.

Quartim, Diorge e Mazzeo fazem reflexões sobre o Maio de 68 na SEDUFSM
Uma nova subjetividade
Um dos símbolos do Maio de 68 francês é a construção de barricadas para resistir ao ataque dos policiais. Antonio Carlos Mazzeo as define como as “barricadas do desejo”, pois na luta empreendida pelos estudantes se encontrava a construção de “uma nova subjetividade”, que se embasava em novos valores morais. “Maior liberdade individual, maior inserção da mulher e o amor livre”. Esses eram alguns dos “desejos” paradigmáticos que instigavam a juventude universitária francesa.
Para o professor João Quartim de Moraes, quando se fala no maio de 68, a referência é a França, Paris, pois este mês não tem simbologia em países como Estados Unidos, Alemanha, Itália ou Brasil. No entendimento do filósofo, apesar de a rebelião estudantil francesa ter conseguido sintonizar-se com os trabalhadores e demonstrado “prova extraordinária de força”, havia nela também muito de “arroubo juvenil”. Em que pese a demonstração de força, diz Quartim de Moraes, o fato de não ter encontrado um objetivo acabou por gerar um refluxo, através do qual o presidente De Gaulle saiu fortalecido na eleição subseqüente.
Mesmo considerando que não há uma relação direta entre os protestos da França e os do restante do mundo, o professor da Unicamp, que morou na França de 1965 a 1967, e depois retornou ao país como exilado de 1970 a 1980, avalia que houve uma “sinergia” entre o maio de 68 e outros movimentos ao redor do mundo, que eram impactados pela luta dos cubanos e mesmo daqueles que se opunham à Guerra do Vietnã. A postura anti-guerra ou antiimperialista existia na França antes mesmo de 1968. Segundo Quartim de Moraes, entre os anos de 1966 e 1967 foram criados vários comitês de solidariedade ao povo vietnamita.
Reação conservadora
Falando sobre os efeitos de todo esse processo, que passa não apenas pela França, mas por todo o planeta, o professor João Quartim de Moraes destaca que houve muitos avanços após esse período, mas que anos depois viria o pior momento para as esquerdas até hoje, que foi a queda do Muro de Berlim (1989). Segundo ele, que participou da luta armada através da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a derrocada das experiências socialistas no Leste europeu forneceu argumentos para que a direita se unisse em torno do discurso senso comum: que havia chegado o fim da história e que o Capitalismo triunfou.
Ao analisar a herança de todo esse período, o professor Antonio Carlos Mazzeo tem visão semelhante ao seu colega Quartim de Moraes. Para o docente da Unesp, houve muitos avanços do ponto de vista político e do ponto de vista da construção de novos valores, entretanto, é inegável a reação “conservadora”. Depois da queda do Muro, do fim do chamado Socialismo real, as saídas passaram a ser “individuais”. Entretanto, se existiram bandeiras, como disse Quartim, que não resistiam a uma análise mais profunda, dentre elas, a lapidar “é proibido proibir”, Mazzeo prefere guardar como uma boa lembrança do maio de 68 um dístico encontrado em muitos muros pichados: “Sejamos realistas, queiramos o impossível”.
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