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ENTREVISTA
"Maio de 68 obscureceu lutas no Brasil"
Por Fritz Nunes
SEDUFSM
Os protestos estudantis de maio de 1968, na França, tiveram uma ‘sinergia’ com movimento em diversas parte do mundo, tendo como pano de fundo a ascensão da revolução cubana e a Guerra do Vietnã. Entretanto, no Brasil, o mês de maio tem pouca simbologia, pois a resistência á ditadura já começara um bom tempo antes, especialmente em 1967. A imprensa brasileira, quando trata do ‘Maio de 68’, o faz intencionalmente como forma de “obscurecer” os acontecimentos no Brasil, que inclui, por exemplo, a decretação do Ato Institucional nº 05, que fechou o Congresso Nacional e instituiu a censura prévia. A análise é do professor de Filosofia da Universidade de Campinas (Unicamp), João Quartim de Moraes. Aos 65 anos de idade, Quartim esteve em Santa Maria - RS, na sexta, 16 de maio, a convite da Seção Sindical dos Docentes da UFSM, para abordar os 40 anos do maio de 1968. O docente se formou em filosofia na USP, em 1965, e, logo depois, morou em Paris, como estudante-bolsista. Voltou ao Brasil em 1968, aderiu à luta armada através da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e acabou se exilando na França em 1970. Concluiu doutorado em 1982, na Fundação Nacional de Ciência Política de Paris, retornando ao Brasil na década de 80, após a Anistia.
- Na sua avaliação, o que pretendiam os estudantes e os trabalhadores com os protestos na França? Havia na gênese do movimento uma rejeição ao Capitalismo e uma tentativa de implantar uma sociedade socialista?
– Não se pode afirmar que havia um projeto socialista. Não foi essa dinâmica do movimento que começou como reivindicação estudantil, que foi o estopim do movimento na Universidade de Nanterre (Paris) em março de 68. Provavelmente, a reação da polícia nas primeiras manifestações foi um modo infeliz e brutal de se reprimir esse movimento, o que exacerbou os ânimos. A partir desse fato, um efeito de contaminação, no bom sentido, aos estudantes de outras universidades na região parisiense que, então, passaram a apoiar o movimento. Então, foi aquela propagação que se sabe, com uma repressão policial muito violenta. Não era naqueles porões da ditadura (como no Brasil), era na rua mesmo que a polícia espancava. Não houve massacre, não houve mortes, acabou morrendo gente, mas não por essa repressão. Era uma brutalidade dentro de certos limites. E, a partir daí, também é interessante comentar sobre os primeiros movimentos de greve. E o fato mais impressionante é uma greve que parou o país com uma carga de espontaneidade muito grande. A França é um dos países com a mais baixa taxa de sindicalização, mas que, para milhões de trabalhadores, foi essa a primeira experiência de combate social. E o que me chamava muito a atenção nas conversas sobre isso, no ano seguinte, é essa experiência social. Mas, depois teve gente que se retraiu por não ter essa postura de combate político que precisa, de organização e de persistência.
– Qual a herança deixada pelo maio de 68?
– O maio de 68 francês – no ponto de vista midiático da grande imprensa, que é orientada e não inocente – é usado para obscurecer as lutas que tiveram aqui, no Brasil. Sabemos que aqui começou antes. No ano de 1967 o movimento estudantil brasileiro foi de muita agitação política e de muita mobilização. Foi a primeira resposta, de opinião democrática, ao golpe militar de 64. Em paralelo a isso, na França, pelas condições de contato e de sintonia do que ocorria no resto do mundo – muito mais do que aqui – havia a solidariedade ao povo do Vietnã. Mesmo que hoje haja um sentimento de horror pelas atrocidades praticadas pelo imperialismo estadunidense no Iraque e no Afeganistão, naquela época era tão forte esse sentimento contra a guerra quanto hoje. Basta ver aquela foto famosa da garota vietnamita correndo queimada. Esse ato covarde e de terror dos estadunidenses fez com que se inflamasse a revolta, que eu mesmo ainda tenho 40 anos depois. E, foram criados comitês de solidariedade na França em 67, isso eu vi lá, uma vasta mobilização de solidariedade e sentimento de horror à guerra. Então, uma situação de paralelismo é que, no Brasil, pela primeira vez, se saiu à rua contra a ditadura. Isso até tem alguma coisa a ver com a dinâmica francesa, mas não muito.
- Qual essa herança então? O mundo hoje é mais conservador ou mais progressista?
– É um balanço difícil, uma pergunta para um debate inteiro. Se eu for examinar, isso sofre a interferência no grande retrocesso para a humanidade, que foi a derrota política e o desmantelamento da União Soviética. Isso criou uma descompensação no espaço político e aumentou a arrogância dos Estados Unidos. O efeito desses fatos sobre o que tinha sobrado no maio de 68 foi ruim, porque aqueles que não tinham uma ligação maior fizeram uma mobilização superficial, daí desertaram e muitos passaram para o outro lado, outros perderam a perspectiva, processo comum em todas as derrotas.
- Há segmentos de pensadores que chegam a afirmar que a série de protestos no mundo, inclusive no Brasil que vivia sob uma ditadura, provocou o endurecimento do regime militar. O sr. concorda com esse tipo de análise?
– Esse raciocínio é terrível. É culpa da direita, dos conservadores, é uma apologia do conformismo.
– Na verdade tem duas análises. Essa, de que o regime se fechou tanto e aí não havia uma válvula de escape, portanto, a luta armada acabou sendo alternativa ao regime, mas tem essa que o senhor disse, que seria uma visão conservadora.
– Veja bem, eu me referi a 68 em geral e não à luta armada. Na condução da luta armada, quanto mais radicalizasse, mais multiplicasse as ações armadas, agravaria a crise, mais produziria o regime a um impasse. Esse raciocínio tinha o seguinte pressuposto: teremos fôlego para continuar fustigando. Esquecendo que haveria resposta. E a resposta foi, como sabemos, a organização de terrorismo de Estado em que o uso da tortura era o meio de coleta rápida de informações.
– Mas é uma tática que tem uma eficiência alta. Vemos que na Argélia, por exemplo, funcionou muito bem a tática do governo francês.
– Funcionou assim, como no Brasil, no Chile, no Uruguai. Essas formas de luta funcionam.
- O que se observa nos dias de hoje, genericamente, é uma apatia política, e uma dificuldade de fazer grandes mobilizações de protesto. O sr. acredita que ainda é possível reeditar o espírito rebelde desse período?
– A parte de espontaneidade foi forte, com essa sintonia e sinergia entre movimento estudantil e operário. Espontaneidade que não criamos, mas, não creio que haja uma apatia. Há altos e baixos, mas estamos vivendo um ciclo excedente natural depois da grande desmobilização que se seguiu à derrota da União Soviética. Esse foi o fato internacional desmobilizante.
– O senhor não acredita em apatia, mas em despolitização, o senhor acredita?
– Sou obrigado a constatar que há um recuo da esquerda, um recuo no movimento socialista, digo no sentido amplo, do movimento comunista, socialista em escala internacional e, vinculo isso a 1989 e a 1991. Existe um desvio das energias populares das esperanças para soluções ilusórias. Por acaso está vinculado tanto no ocidente cristão como no mundo islâmico.
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