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ENTREVISTA
"1968 mostrou que é preciso internacionalizar as lutas gerais dos trabalhadores"
Por Najla Passos
ANDES-SN
1968 foi um momento raro de eclosão das lutas em várias partes do mundo. Entretanto, como essas lutas não encontraram canais de internacionalização, principalmente em função da Guerra Fria, acabaram sufocadas pela ação das instituições de cunho nacional, incluindo aí tanto as entidades oficiais quanto a indústria cultural. É essa leitura que a historiadora Virgínia Fontes, professora da Universidade Federal Fluminense, usa para pautar as discussões a despeito do simbólico ano de 1968. Segundo ela, é imperativo compreender as contradições inerentes ao período, como por exemplo, a tentativa de desagregação da luta internacionalizada e geral dos trabalhadores em favor das lutas nacionais e de grupos. “O fato de que a dominação burguesa se apóie sobre elementos desagregados das lutas sociais é algo de extremamente atual e não deve ser deixado de lado”, afirma a historiadora.
Informandes Online - Como o Maio de 68 se insere no contexto mais geral das lutas anti-imperialistas protagonizadas pelos movimentos sociais?
Virgínia Fontes - Eu gostaria de sugerir uma leitura um pouco distinta do conjunto de manifestações internacionais ocorridas em 1968, que envolveram manifestações estudantis, greves gerais, movimentos sociais e populares. Para tanto, abandonaremos o terreno estritamente nacional de cada manifestação para pensar o evento não apenas em si mesmo, mas no contexto dos últimos 50 anos, procurando entender o sentido mais amplo de que se revestiu. É preciso lembrar que o anti-imperialismo tem dois enfoques que, apesar de próximos, não são idênticos. No primeiro, mais generalizado no senso comum, expressa a recusa do domínio colonial e da imposição militar por parte de determinadas potências. Embora legítimo, não esgota o sentido do termo. O
anti-imperialismo envolve também a luta contra a exacerbação da concentração de capitais que caracteriza a dominação capitalista a partir do grande salto monopolizador de inícios do século XX. Portanto, não se exaure na luta nacional e anti-colonial, embora a incorpore. Aqui, o anti-imperialismo
adquire uma conotação fortemente anti-capitalista e exige ampliar o horizonte
da reflexão, pois traduz uma complexificação das contradições reais e dos
terrenos sociais de luta, pois se expande a socialização nacional e
internacional dos processos de reprodução ampliada do capital, enquanto se
encapsulam as dinâmicas políticas nos âmbitos nacionais.
Ora, 1968 expressou, de forma difusa, a emergência de variados problemas e lutas de novo escopo internacional e que foram contidas pelo contexto predominante da guerra fria. Isso bloqueou a instauração de novos escoadouros internacionalizados, de cunho popular e, sobretudo, revolucionário. Na década de 1960 se acelerava a internacionalização do capital. Dois exemplos: a expansão das “multinacionais” e a implementação de mercados interbancários off-shore de moedas, ou eurodólares (Inglaterra, final dos anos 1950), propulsando a condensação internacional de capitais.
Crescia a internacionalização do capital, mas também emergiam formas de descontentamento popular no plano internacional. O ano de 1968, para além de cada situação nacional específica, de cada grupo social (operários, jovens, negros, mulheres, etc) mostra sobretudo um processo raro de emergência internacional de lutas as quais, desprovidas de canais internacionais revolucionários, foram contidas no interior de instituições nacionais e, muito rapidamente, seriam canalizadas através das próprias agências internacionais do capital (quer entidades oficiais, quer a indústria cultural).
Lutas como o anti-racismo, o anti-sexismo ou a denúncia dos devastadores efeitos sócio-ambientais somente adquirem plenamente sentido no contexto internacional anti-capitalista. Apartadas da luta contra a esqualificação reiterada de trabalhadores das mais diversas procedências; abandonando-se a luta pela plena igualdade entre todos os seres humanos (que permite de fato respeitar as diferenças ao impedir a recomposição de hierarquias) e da exigência de que todos os trabalhadores, qualquer que seja sua origem nacional, sejam igualmente considerados, poderiam ser recapturadas para a manutenção da ordem.
Deslocadas do terreno da exploração e da igualdade no plano internacional, tais lutas arriscam exaurir-se em sua banalização, tantos são os grupos atingidos, tão diversas são suas formas, tão urgentes as intervenções
pontuais, tão recorrentes suas manifestações. Cada pequeno avanço se defronta com inúmeros retrocessos.
Informandes Online - Uma linha expressiva de historiadores e intelectuais têm defendido abertamente que devemos esquecer o Maio de 68. Você concorda? Por quê?
Virgínia Fontes - Sou historiadora e não posso concordar com a sugestão do esquecimento de fenômenos, em especial dos que, pelas mais diversas razões, contêm inúmeros elementos que permanecem como problemas efetivos na atualidade.O ano de 1968 muitas vezes é reduzido ao maio de 1968 francês, que conta com inúmeras análises, realizadas por pesquisadores franceses e de todas as nacionalidades, inclusive brasileiros. Suas interpretações mais amplas e generalizantes são extremamente contraditórias. Edgard Morin e outros elegeram determinados ângulos desses movimentos, para considerá-los como um “novo formato” das revoluções, enterrando as reivindicações proletárias. Regis Debray, em 1978, sugeria que maio de 1968 fosse esquecido, pois corresponderia à uma nova forma de dominação burguesa. Essa contradição, presente ainda hoje nos debates, exige, ao contrário do esquecimento, que seja trabalhada e compreendida. O fato de que a dominação burguesa se apóie sobre elementos desagregados das lutas sociais é algo de extremamente atual e não deve ser deixado de lado. Descolar as lutas da década de 1960 do contexto geral mais amplo no qual ocorreram – diluindo-se assim seu caráter anticapitalista, ainda que não tenha tido sucesso – expressa apenas uma posição conformada a essa mesma ordem.
Informandes Online - Na sua opinião, qual o legado do Maio de 68 para a intelectualidade brasileira?
Virgínia Fontes - O ano de 1968 no Brasil comportou especificidades, ao mesmo tempo em que se inseriu no contexto geral de lutas com forte teor anticapitalista da década de 1960. Em plena ditadura militar – após inúmeras cassações, prisões e perseguições, sobretudo de lideranças sindicais e camponesas – ocorreram grandes manifestações estudantis e populares, iniciadas após o assassinato do estudante Edson Luis. Embora originadas na movimento estudantil (até então menos atingido pela truculência ditatorial do que o movimento operário ou camponês), rapidamente extrapolaram tais limites, envolvendo outros setores, como os culturais e populares. Não se limitaram a tais ambientes, com a realização importantes greves operárias, como Contagem e Osasco. As manifestações de 68 recobriam inúmeros aspectos, mas o seu núcleo fundamental era o combate à ditadura.
Do ponto de vista das dificuldades para a internacionalização de lutas
expressas em 1968, a situação brasileira viveria ainda mais intensamente a
contradição que vigorava em outros países. A ditadura civil-militar configurava um novo alinhamento automático no eixo Norte-Sul, abrindo-se para a penetração de capitais – e de cultura – estadunidenses. Ao mesmo tempo,
censurava as grandes discussões e debates que ali ocorriam, encerrando
estreitamente as questões políticas num âmbito nacional estreitado. A luta
contra a ditadura encontraria portanto um caminho cultural peculiar,
aprofundando-se uma cultura nacional – mas não limitada – de cunho
francamente anti-ditatorial, enquanto a adoção de padrões contestadores,
inclusive os originados nos EUA, era proibido. Cindiu-se, aqui, uma cultura
de cunho internacional anti-ditatorial (quer baseada em tradições nacionais
ou em formas culturais internacionais) e um pastiche cultural internacionalizado, fortemente impulsionado pela indústria cultural em
expansão.No Brasil, como em outros países, a década de 1960 – e o ano de 1968 – contém uma chama viva e que se recusa a morrer: a dos movimentos populares contra todas as formas de exploração, dominação e opressão. Mas, como procurei mostrar, também expressam formas específicas de dominação – em especial, formas culturais – tornadas possíveis pela segmentação de tais
reivindicações. Por isso, a luta ainda hoje se estende à memória e à história; essa a razão da tentativa de alguns para enterrar definitivamente tanto as lutas, quanto a lembrança de 1968.
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