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ENTREVISTA
Indústria cultural e grande mídia tentam apagar o caráter coletivo de 68, diz antropóloga
Por Najla Passos
ANDES-SN
Na novela Duas Caras, exibida em horário nobre pela Rede Globo, estudantes caricatos e farsescos rebaixam a imagem do Movimento Estudantil. Na minissérie Queridos Amigos, veiculada pela mesma emissora, o personagem mais politizado, legítimo herdeiro da juventude contestatória de 1968, é pintado como algo que vai do ridículo ao ultrapassado. Nas reportagens sobre os 40 anos do emblemático ano de 1968, os revolucionários se transformam em ingênuos sonhadores ou em autoritários violentos. Na chamada grande imprensa e na indústria cultural, a palavra de ordem é despolitizar a memória coletiva sobre 1968.
Conforme a antropóloga e professora da Faculdade de História da Universidade Federal Fluminense – UFF, Adriana Facina, isso ocorre porque as bandeiras levantadas em 1968 estão mais atuais do que nunca: o imperialismo norte-americano continua a ameaçar diferentes povos e culturas, a devastação ambiental condena o futuro do planeta e os preconceitos raciais e de gênero permanecem presentes na cultura atual. Para a antropóloga, relembrar 1968 é reascender a esperança em um mundo melhor. E lembrar que “essa esperança só existe na luta pelo impossível, na construção coletiva da revolução”.
Informandes Online - A novela Duas Caras, exibida no horário nobre pela Rede Globo, ajuda a despolitizar as discussões sobre a importância do movimento estudantil?
Adriana Facina - O estudantes em Duas Caras são caricatos, farsescos e, de modo que não é coincidência, buscam consolidar uma imagem rebaixada do movimento estudantil justamente numa conjuntura marcada por ocupações de reitorias e por um certo ascenso dessas lutas nas universidades públicas. Como essa é uma realidade distante da maioria dos brasileiros, a construção deturpada da realidade que aparece na novela é um meio poderoso de convencimento sobre a inutilidade não somente das lutas do movimento estudantil, mas de qualquer iniciativa organizada coletivamente na sociedade, sempre mostradas como violentas e sem propósito.
IO - A minissérie Queridos Amigos segue a mesma linha?
AF - Mais uma vez, o personagem mais politizado, representado por Matheus Nachtergale, era também caricato, transmitindo uma idéia de algo ultrapassado e meio ridículo. Se formos ver a história do anticomunismo, perceberemos que muitas das suas representações clássicas continuam presentes nessas caricaturas de revolucionários. O discurso anticomunista ora ridicularizava e infantilizava os revolucionários, ora os representava como ameaçadores e violentos. Como podemos ver, esse discurso continua bem vivo, na mídia gorda e na indústria cultural.
IO - E as reportagens especiais que têm sido publicadas na imprensa comercial?
AF - Em geral, elas seguem linha parecida. Os revolucionários de 68 ora são ingênuos sonhadores, ora são autoritários e violentos. De todo modo, o que fica claro é o esforço em convencer que suas lutas e bandeiras não fazem mais sentido no presente, que os tempos são outros e que eles carecem de modernidade histórica. O que ficou foi o que pôde ser absorvido pelo mercado, como uma pretensa revolução sexual ou mesmo uma cultura jovem, associada a estilos de vestimenta, comportamentos e música.
IO - Como a perspectiva das lutas pelas liberdades individuais, que muitos pensadores alegam ter começado naquele período, se inserem no contexto das lutas mais gerais dos trabalhadores?
AF - Um tema importante colocado em cena em 68 é o da indissociabilidade entre liberdades individuais e coletivas. Naquele momento, parecia claro para os que lutavam por um outro mundo que ser livre só seria possível com a derrubada do capitalismo. E que as mudanças individuais e coletivas teriam de vir juntas. Posteriormente, uma leitura reformista sobre os movimentos de 68 consagrou a idéia de que o importante foi a conquista das liberdades individuais, separando algo que naquele momento era inseparável.
IO - Quais lições devemos tirar do Maio de 68? Como trazer a experiência daquela época aos nossos dias?
AF – Rigorosamente, nenhuma das bandeiras de 68 perdeu o significado hoje. Por exemplo, o anti-imperialismo. Naquele momento, havia o Vietnã, hoje temos a criminosa invasão do Iraque. A depredação do meio ambiente se aprofundou e estamos longe da exsitência de uma sociedade livre de preconceitos raciais ou de gênero. Não só ainda não construímos uma sociedade fraterna e igualitária, como a desigualdade se ampliou nesses tempos neoliberais. Fazer reviver essa memória é fundamental para acender a chama da necessária esperança num mundo justo, livre, solidário, amoroso e que seja a favor da vida humana. E que essa esperança só existe na luta pelo impossível, na construção coletiva da revolução.
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