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OPINIÃO
Outros “maios de 68” virão
Por Zé Maria
Metalúrgico, diretor da Federação Democrática dos Metalúrgicos de Minas Gerais e participa da Coordenação Nacional da Conluta
Passaram-se 40 anos do maio francês de 1968. Foram memoráveis as lutas da juventude, que sacudiram a França em uma rebelião contra o sistema de ensino superior do país. No entanto, apesar de menos conhecidos, houve outros episódios da luta de classes daquele período que merecem, e precisam, ser lembrados.
As lutas naquela época não se resumiram ao maio Francês, ainda que este tenha sido seu ponto mais forte. Vale a pena lembrar que houve intensas mobilizações da juventude e da classe trabalhadora nos Estados Unidos contra a guerra do Vietnã e, mais tarde, contra a discriminação racial e em protesto contra o assassinato de Martin Luther King; na Tchecoslováquia, uma intensa mobilização de massas coloca em crise o aparelho estalinista do PC e depois desemboca na Primavera de Praga (que só é derrotada pela invasão do Exercito da União Soviética. Na Inglaterra os estudantes ocupam as maiores universidades do país; na Itália milhões de operários e trabalhadores patrocinaram mobilizações e greves fortíssimas enquanto os estudantes ocupam universidades; no México, os estudantes da UNAM ocupam a universidade; na Polônia, as universidades entram em greve. No Brasil, em março, o estudante Edson Luiz é assassinado pela polícia no Rio; em abril acontecem as greves dos metalúrgicos de Contagem, em Minas Gerais; e em junho, a Greve de Osasco e a passeata dos cem mil contra a ditadura militar. No primeiro de maio, na Praça da Sé, em São Paulo, os manifestantes revoltam-se e expulsam o governador biônico e os pelegos do palanque.
Tampouco o maio Francês se resumiu à luta dos estudantes franceses. Foi desencadeado por eles, em uma formidável rebelião contra o sistema de ensino superior daquele país, que teve seu início com a greve da universidade de Nanterre. A luta dos estudantes se estende, se radicaliza (em 10 de maio as grandes cidades da França vivem a “noite das barricadas”, que conforme seus idealizadores, “fechavam as ruas para abrir caminhos”). E essa rebelião, por sua vez, contamina a classe operária e, pressionada por suas bases, as Centrais Sindicais convocam uma greve geral que paralisa mais de 10 milhões de operários, que ocupam centenas de fábricas. Por todo o país, organizaram-se comitês de luta dos operários, estudantes e camponeses, num ensaio de poder paralelo ao Estado burguês.
A França viveu naqueles dias de maio de 68 uma grande convulsão social que colocou em cheque a sociedade capitalista e seu Estado. A juventude foi vanguarda indiscutível do processo, mas a luta só ganhou a dimensão que teve porque se estabeleceu a aliança da juventude com a classe trabalhadora, em particular com os operários da França. A direção das grandes organizações da classe trabalhadora francesa, depois de forçadas a convocar a greve geral, traíram o movimento, e empenharam-se junto com o governo do general De Gaulle até derrota-lo, desviando-o para o processo das eleições parlamentares.
Desta jornada memorável de lutas da juventude e da classe trabalhadora francesa ficam muitas coisas que marcaram profundamente a vida de toda uma geração. É importante que a compreendamos como componente gerador e ao mesmo tempo expressão de uma época, marcada pela contestação dos valores tradicionais, por mudanças profundas no modo de vida da juventude, mas não só.
Ficaram também lições para as lutas da juventude e da classe trabalhadora. Lutas que todos os dias são retomadas em todos os lados. Ainda na semana passada assistimos a uma grande manifestação dos trabalhadores na educação que, secundando aos estudantes do ensino médio, saíram às ruas da mesma Paris para defender o ensino público. A incansável luta da juventude Palestina contra o Estado sionista de Israel; a rebelião liderada pelos monges no Tibet. As rebeliões dos trabalhadores e da juventude que assistimos na América Latina, desde 2000, na Argentina, no Equador, na Bolívia, no Peru, no Chile. O processo revolucionário que vive a Venezuela. São todas expressões atuais das mesmas lutas que sacudiram tantos lugares deste planeta 40 anos atrás.
| É preciso resgatar o maio de 68 para valorizar as mobilizações da juventude, para entender a importância que tem a sua luta contra o Reuni e a Reforma Universitária. Para entender a necessidade de situar esta luta em defesa da educação pública e de qualidade nos marcos da luta mais geral contra a exploração e opressão capitalista. |
No Brasil, a ocupação da USP, no ano passado, e a ocupação da UnB, algumas semanas atrás são algumas das expressões do processo de luta que vai se gestando no seio da juventude. A greve radicalizada dos operários da Construção Civil que sacudiram por quinze dias a cidade de fortaleza, no Ceará, e que agora paralisa as obras da Petrobrás em São José dos Campos (que, radicalizados, expulsaram a pedradas a diretoria do seu sindicato – cutista – de sua assembléia) são uma pequena expressão da luta dos operários contra a exploração a que são submetidos, que tende a ganhar cada vez mais peso em nosso país.
É preciso resgatar o maio de 68 para valorizar as mobilizações da juventude, para entender a importância que tem a sua luta contra o Reuni e a Reforma Universitária. Para entender a necessidade de situar esta luta em defesa da educação pública e de qualidade nos marcos da luta mais geral contra a exploração e opressão capitalista.
Para entender a necessidade histórica da aliança da juventude com os trabalhadores, em particular com classe operária, pois esta é a portadora histórica do único projeto de sociedade – o socialismo - que pode satisfazer as necessidades e anseios expressas nas lutas da juventude. E também para resgatar a importância da luta da juventude para a classe trabalhadora. Não haverá processo revolucionário capaz de sacudir e destruir as estruturas da sociedade capitalista sem uma participação intensa da juventude. Serão compostos por eles, os jovens estudantes, os jovens operários, os jovens pobres que vivem nas periferias das grandes cidades, os destacamentos mais determinados da revolução. É da condição de vida da juventude cumprir esse papel.
Hoje, no Brasil, nós não vivemos uma situação revolucionária, nem convulsionada como aquele maio francês. Vivemos uma situação de transição, mas que, a tomar pelas perspectivas econômicas e políticas do país e pelo desenvolvimento da luta de classes no mundo e na América Latina, deve caminhar para um processo de enfrentamentos e conflagrações sociais cada vez mais intensos. A esquerda socialista brasileira, os sindicatos combativos, os movimentos populares, as organizações da juventude, enfim, todos os que militamos com uma perspectiva revolucionária temos a obrigação de nos prepararmos para este momento. É em momentos assim, que em geral duram um período muito curto de tempo, que abre-se a possibilidade de os trabalhadores aplicarem um golpe definitivo no capitalismo e seu Estado, abrindo caminho para a transição socialista. Não temos, portanto, o direito de desperdiçar esta possibilidade.
É com essa perspectiva que devemos desenvolver a nossa atividade hoje, pois o que não prepararmos agora não teremos chance de improvisar depois. A luta de classes é implacável e os erros custam muito caro. Isso precisa estar na consciência dos estudantes que estão dando passos para construir uma organização nacional, um instrumento para seguir levando adiante a sua luta; dos movimentos populares urbanos, que engatinham buscando romper a fragmentação e construir um espaço nacional de organização para suas mobilizações; dos sindicatos que reagem à traição da CUT e avançam na construção de alternativas de organização, buscando junto com isso superar os problemas estruturais da organização sindical brasileira.
Essa é a consciência que nós, envolvidos na construção da Conlutas, devemos ter acima de tudo. Na França de 68, faltou uma direção revolucionária que pudesse ser o fator consciente daquele processo, que pudesse lutar para que ele tivesse outro desfecho, transformador. Faltou que a direção cumprisse o papel do Partido Bolchevique na Revolução de Outubro de 1917, na Rússia. Essa tarefa está colocada nos ombros dos militantes e organizações socialistas e revolucionárias existentes em nosso país. Mas a disputa pelo poder com a burguesia, bem como a constituição de um outro poder, dos trabalhadores, que abra caminho na construção do socialismo, pressupõe também a existência de grandes organizações de massa, capazes de aglutinar para a luta revolucionária todos os trabalhadores e jovens, independentemente dos partidos a que pertencem. O papel cumprido em seu tempo pelos sovietes na Rússia revolucionária. Este é o desafio que estará colocado, a seu tempo, para a Conlutas, se queremos que ela seja, de fato, um instrumento para a defesa dos direitos e interesses imediatos, mas também um instrumento para a luta pelo socialismo, para colocar fim a toda forma de exploração e opressão do capitalismo.
Outros “maios de 68” virão. Outros outubros também. Viva a luta revolucionária da juventude, dos operários e de toda a classe trabalhadora de todo o mundo!
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