nº 50 - Brasília, 13 de junho de 2008
 

NOVA AMEAÇA
Projeto do Executivo amplia áreas de atuação das fundações de apoio

Por Najla Passos
ANDES-SN

Se o Congresso Nacional aprovar o parecer do deputado Pedro Henry (PP-MT) ao Projeto de Lei Complementar nº 92/07, de autoria do Executivo, as fundações privadas, que hoje protagonizam escândalos de corrupção nas universidades públicas, poderão operar também no ensino fundamental e médio, além de diversas outras áreas tidas como de atuação não exclusiva do Estado, como saúde, ciência e tecnologia, pesquisa, comunicação social, turismo e até mesmo previdência complementar dos servidores públicos.

Em audiência pública promovida pela Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados, na terça-feira (10/60), todos os representantes dos movimentos sociais, sindicais e das entidades de classe presentes, além de alguns deputados governistas e até mesmo funcionários do Executivo, se declararam contrários ao parecer e muito preocupados com as mudanças que ele imputar à concepção do Estado brasileiro.

“O projeto dá continuidade ao processo de privatização do Estado brasileiro ao delegar à iniciativa privada várias atividades que devem ser prestadas exclusivamente pelo Estado”, afirmou a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA). Ela defendeu a exclusão, do texto do projeto, das atividades de ensino e pesquisa, dos hospitais universitários e das normas referentes à contratação de pessoal.

Autora do pedido de realização da audiência, a deputada considera que o projeto é estratégico e, por isso, precisa ser debatido com muito mais calma pela sociedade. “O projeto desobriga o Estado em relação a algumas de suas mais relevantes funções. Precisamos é remontar o Estado brasileiro, esfacelado pelos governos neoliberais, e não criar soluções paliativas”, afirmou.

A falsa lógica do mercado eficiente
O representante do Conselho Nacional de Saúde, Ronald Ferreira, iniciou sua fala reconhecendo que a saúde brasileira passa por uma crise de gestão. Entretanto, se posicionou contrário ao PL. Para ele, o projeto segue a falsa lógica de que “tudo o que é privado é eficiente”. “Essa lógica não se sustenta, pelo menos do ponto de vista do Conselho Nacional de Saúde. No Brasil, a dificuldade de fazer a coisa pública funcionar, normalmente, está ligada ao interesse privado. Por isso, é estranho achar que o setor privado irá resolver o problema da saúde”, argumentou.

A representante da Federação de Sindicatos de Trabalhadores de Universidades Brasileiras - FASUBRA, Fátima dos Reis, lembrou que esse debate é recorrente há anos, já que faz atende ao ideário neoliberal reforçado pela mídia, que induz à retirada do Estado da prestação de serviços, que ficam à mercê das empresas. “A roupagem muda, mas o pano de fundo é o mesmo: flexibilizar a gestão e o financiamento dos setores que deveriam ser obrigação exclusiva do governo. A real intenção desse projeto é definir as áreas que o governo vai ceder à iniciativa privada”, resumiu.

Desvinculação dos HU das universidades
Uma das mudanças previstas pelo PL-92/07 é a transformação dos hospitais universitários em fundações públicas de direito privado. Para o governo, a medida dará mais autonomia às instituições para que elas possam gerir os recursos do Sistema Único de Saúde – SUS e criar novas formas de captar investimentos.

A representante da FASUBRA, entretanto, acredita que os efeitos serão outros. “Os HU são unidades de saúde, mas também são centros de pesquisa e extensão importantíssimos. Uma medida como essa era acabar com a pesquisa e a extensão na área de Saúde no Brasil”, afirmou. Segundo ela, 80% da pesquisa realizada no país ocorre dentro das universidades. Por isso, os HU´s não podem se desvincular dessas instituições.

O diretor de hospitais universitários e assistência em saúde do Ministério da Educação – MEC, José Wellington Alves dos Santos, também rechaçou o PL. Segundo ele, os HU são unidades estratégicas para o país, na medida que, além de prestar serviços relevantes à população, garantem a formação dos profissionais de 14 diferentes áreas da saúde. O diretor afirmou que, na visão do MEC, os HU´s não podem se desvincular das universidades.

“A dificuldade dos hospitais universitários é suprir a demanda da sociedade por serviços de alta complexidade. E isso fica difícil porque não há contratações e nem financiamento”, afirmou, deixando claro que as fundações não irão resolver esse problema.

O presidente do Conselho Nacional de Saúde, Francisco B. Junior, classificou o PL como a “institucionalização da mercantilização da saúde brasileira” e pediu espaço aos deputados para manifestar seu descontentamento com o Executivo. Para ele, é impossível pensar em um SUS adequado se não for a partir de uma gestão totalmente pública. “Os movimentos sociais estão indignados com o governo Lula pelo autoritarismo na apresentação de um projeto tão comprometido com o ideário neoliberal”.

Comissão se prepara para votação
O projeto já se encontra na pauta de votação da Comissão e só pode ser alterado, agora, por vontade do próprio relator. “Tenho sofrido pressões do presidente da Comissão para concluir o relatório, mas ainda aceito debater as sugestões da sociedade. O projeto original era muito simplório, com apenas dois artigos, e meu esforço, nesse último ano, foi o de reformulá-lo justamente para incorporar as sugestões dos diversos setores com os quais realizamos debates”, justificou Pedro Henry.

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