nº 53 - Brasília, 11 de julho de 2008
 

1º CONGRESSO DA CONLUTAS
Participantes aceitam o desafio de construir uma nova forma de organização dos trabalhadores

Najla Passos
ANDES-SN

A difícil tarefa de reorganizar a classe trabalhadora brasileira e assegurar sua autonomia e sua independência de classe para enfrentar os grandes desafios impostos pela conjuntura atual e pela crise econômica mundial que se anuncia esteve no centro dos debates que mobilizaram as 3,5 mil pessoas que participaram do 1º Congresso Nacional da Conlutas, realizado de 3 a 6 de julho, em Betim (MG).

"Nós precisamos avançar na construção de um tipo de organização que nunca houve no Brasil. Uma organização que una todos os explorados e oprimidos, não só em torno de suas demandas imediatas, mas também com o intuito de mudar o país, de mudar o mundo, de fazer uma verdadeira revolução socialista", afirmou o coordenador da Conlutas, José Maria de Almeida, em entrevista logo após a abertura do evento.

Foram 2,8 mil delegados inscritos com direito a voto, representando 500 entidades e 175 sindicatos, sem contar os observadores e o pessoal de apoio. O Congresso consagrou a estrutura organizativa inovadora da Conlutas como central sindical, popular e estudantil desenhada desde o início para abarcar todos os setores em que se acha hoje fragmentada a classe trabalhadora brasileira.

Grandes polêmicas
Algumas teses propostas renderam grandes polêmicas, como, por exemplo, a forma de participação dos movimentos populares e dos estudantes nessa nova central.

"As formas dos trabalhadores se organizarem mudaram bastante, em função do desemprego e do mercado informal. E os sindicatos tradicionais ainda não encontraram formas de agregar os trabalhadores que não se encontram com a carteira assinada. Por isso, é importante concentrar na Conlutas os movimentos populares urbanos que organizam as pessoas, por exemplo, pela moradia", defendeu o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto – MTST, Guilherme Castro Boulos.

A coordenadora da Central de Lutas dos Estudantes – CONLUTE, Camila Lisboa, também fez uma defesa apaixonada da ampliação da participação dos estudantes na nova central. Saiu vitoriosa quando a plenária aprovou, na mais polêmica e apertada votação do congresso, a fixação do percentual de 10% para participação dos estudantes nas plenárias da central, conforme ela havia proposto.

Ao final da plenária de encerramento, ficou aprovado o caráter sindical, popular e estudantil da Conlutas, que continuará a representar movimentos estudantis, sindicais, agrários e populares. Também ficou aprovado seu caráter político, como uma coordenação combativa, classista e cujo objetivo estratégico é a unificação das lutas dos trabalhadores na perspectiva da construção de uma sociedade socialista.

Autonomia em relação aos partidos
A Conlutas também primará por manter autonomia em relação aos partidos políticos, embora reconhecendo a importância da militância nos partidos do campo da classe trabalhadora. 

Para as eleições de outubro, a plenária indicou que os trabalhadores façam uma opção de classe e votem em candidatos identificados com a luta dos trabalhadores e com os partidos que atuam no campo da classe trabalhadora. A mesma resolução reafirma, estrategicamente, o primado político da organização pela base e da ação direta dos trabalhadores sobre a ação institucional e as eleições burguesas.

Unificação com a Intersindical
Uma das propostas da coordenação da Conlutas para viabilizar esse avanço era a unificação da central com a Intersindical, outro instrumento de luta dos trabalhadores, criado após o 9º Congresso da CUT (junho de 2006) pelas correntes minoritárias da central que primavam por uma política independente em relação aos governos.

A proposta foi aprovada, apesar das dificuldades políticas em materializá-la, que foram apenas acentuadas quando algumas das principais correntes políticas que militam no PSOL (MES e MTL) decidiram abandonar a Conlutas às vésperas de seu 1º Congresso. A plenária do Congresso, acolhendo proposta trazida por representantes da Intersindical, aprovou a indicação de que a Conlutas e a Intersindical articulem-se na Frente Nacional de Mobilização para fazer avançar, de forma unificada, as lutas da classe trabalhadora.  

Contra a alta dos alimentos
A partir do segundo semestre deste ano, a Conlutas lançará uma campanha nacional pelo gatilho automático dos salários diante do aumento de preços. Aliás, foi justamente a alta nos alimentos o tema escolhido pelos delegados como mote capaz de unir sindicatos e movimentos populares. Afinal, todos sofrem com a volta da inflação e o aumento da cesta básica.

"A alta dos alimentos recoloca a reforma agrária como importante pauta de discussão no país. E é uma pauta capaz de unificar todos os setores de luta da classe trabalhadora", propôs o coordenador do Grupo de Trabalho sobre Reforma Agrária da Conlutas, Zelito Silva, integrante do Movimento Terra e Liberdade - Democrático e Independente (MTL-DI).

Bandeiras internacionais
Em meio a muitas mini-passeatas e manifestações organizadas durante o congresso em defesa de trabalhadores de outros países, os delegados aprovaram uma série de bandeiras de luta internacional.

As principais delas passam pela exigência da saída das tropas brasileiras do Haiti, assim como das tropas imperialistas do Iraque, do Afeganistão e a saída de Israel da Palestina. Os delegados aprovaram também a luta pela legalização dos imigrantes em todo o mundo.

<< PRIMEIRA PÁGINA