nº 53 - Brasília, 11 de julho de 2008
 

ENTREVISTA - Tarquino Cajamarca
"Não existe nenhum governo de perspectiva socialista na América Latina"

Najla Passos
ANDES-SN

Esta semana, o presidente do Equador, Rafael Correa, confiscou duas redes de TV (Gamavisión e TC Televisión), cujas concessões estavam nas mãos de banqueiros que, após a quebra do Filabanco, fugiram para os Estados Unidos. Porém, mesmo tomando medidas tidas como próprias da esquerda, o presidente está longe de responder às expectativas dos trabalhadores que o elegeram.

Para o movimento sindical independente e combativo do Equador, Correa faz parte dos governantes latinos que, mesmo tendo sido eleitos pelos trabalhadores para defender seus interesses, estão cada vez mais seduzidos pelo canto de sereia do neoliberalismo. Assim como também o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente da Argentina, Cristina Kirshner, o presidente da Bolívia, Evo Morales, e até mesmo o polêmico presidente Venezuelano, Hugo Chávez.

Confira a entrevista do secretário-geral da Frente de Resistência Sul da Minoria do Equador e representante da Assembléia Nacional Popular do país, Tarquino Cajamarca, concedida à reportagem do Informandes Online, durante o 1º Congresso da Conlutas:

- Qual é sua expectativa com relação a esse 1º Congresso da Conlutas e ao Encontro Latino-americano e Caribenho dos Trabalhadores?
- Esse congresso gerou expectativas na América Latina e no mundo, e a nossa entidade, que é uma das primeiras organizações sindicais e de lutadores do Equador, não podia deixar de vir conversar com os companheiros e trazer um pouco da sua longa experiência. O fato é que estão 'globalizando', na América do Sul, um tipo de governo que mostra bem como são os governos socialistas do século 21. Por isso, precisamos estar unidos. Não se pode dizer, por exemplo, que todas essas políticas assistencialistas de Rafael Correa para a educação, a saúde, o social são plataformas da esquerda. Nenhuma política estrutural tem sido implementada nesse governo, a unidade governamental continua pagando a dívida externa e continua governando com a mesma direita. O discurso é um, mas a ação é outra. Nesse congresso, tenho uma oportunidade muito grande de encontrar com companheiros lutadores, e assim podemos nos comunicar, nos relacionar, não somente como pessoas e dirigentes, mas sim como organizações. Em novembro de 2007, nós fundamos a Frente de Resistência Sul da Minoria do Equador. É formada por entidades representativas dos trabalhadores de cinco províncias. E conforme fomos aumentando o nível da luta, formamos também a Assembléia Nacional dos Povos, com o intuito de ir aglutinando as forças dos trabalhadores.

- Quantos trabalhadores a Assembléia Nacional Popular aglutina?
- Na ultima carta emitida em 2008 pela entidade, assinaram 18 organizações que fizeram historia, inclusive garantindo a vitória do presidente Rafael Correa. São sindicatos, mas também grupos ecologistas, organizações sociais e populares que são contrárias à política destinada a adormecer, a condicionar os trabalhadores pra não protestar frente a uma política arrasadora, imposta por setores da esquerda que trabalham juntos com esse novo governo. São governos comprometidos com os organismos internacionais que já têm um desenho desses tipos de governos revolucionários, socialistas, comunistas... Só que muito mais no nome do que na tática, na estratégia de governo, até porque o socialismo do século 21 é diferente do socialismo do século 20 .

- Em sua opinião, em nenhum país da América Latina há em algum governo uma perspectiva de fato socialista ou marxista?
- Nos machuca muito que nenhum governo da AL, neste momento, vá nessa linha. Nem Chávez, nem Lula, nem Morales, nem Correa estão nessa linha. Infelizmente, eles se aproveitam dos sentimentos dos povos latinos para sobrepor uma linha próxima, situada apenas no plano do discurso, que nada tem a ver com suas ações políticas implementadas.

- Você acredita que desse encontro possa sair uma união forte de trabalhadores latino-americanos?
– Este encontro propõe a formação de uma Coordenação Latino-americana e Caribenha dos trabalhadores, mas penso que temos que amadurecer a idéia, discutir mais. Não sou contra, mas precisamos trabalhar mais para isso. Precisamos, primeiro, melhorar o contato entre as organizações que comungam as mesmas ideologias. E necessitamos desse tipo de contato porque é certo que a pobreza está globalizada, que a tecnologia está globalizada, que os meios de produção estão centralizados de forma global, e que, por isso, a própria luta dos trabalhadores também tem que estar globalizada também.

– Como os movimentos sindical e popular do Equador avaliaram a posição de Rafael Correa e Hugo Chaves no entreve diplomático com a Colômbia, gerado, principalmente, em função do suposto apoio de Equador e Venezuela às FARC?
- Nos últimos manifestos, não só da Frente da Resistência, mas também da Assembléia Nacional dos Povos, nós fizemos a seguinte avaliação: a briga entre os governos não passa de uma cortina de fumaça construída por ambos, em favor do imperialismo que está por trás de todos eles, para enganar as burguesias locais dos três países e distraí-las sobre quem são, de fato, os inimigos.

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