nº 57 - Brasília, 15 de agosto de 2008
 

MERCANTILIZAÇÃO
Ensino superior movimenta R$ 20,5 bilhões no Brasil e atrai cada vez mais capital estrangeiro
O faturamento deve ter um aumento de 40% nos próximos quatro anos, prevê consultoria

Elizângela Araújo
ANDES-SN

O crescimento do mercado de ensino superior no Brasil vem deixando os empresários do setor cada vez mais ricos. De acordo com a Hoper Consultoria, a rede privada no país, que conta com pouco mais de mil instituições, movimenta cerca de R$ 20,5 bilhões.

De acordo com as projeções da Hoper, o faturamento conjunto dessas empresas deverá ter um aumento de 40% nos próximos quatro anos. Cifras tão expressivas têm despertado o interesse de grupos estrangeiros e dos próprios empresários do setor, que já abrem o capital de suas empresas.

A primeira instituição a receber recursos estrangeiros foi a Anhanguera Educacional, que fez sua primeira oferta pública de ações em 2007. Em duas ofertas de ações na bolsa, o grupo captou R$ 935 milhões. De acordo com reportarem do jornal Valor Econômico, o Anhanguera Educacional é o grupo cujas ações mais se valorizam.

Outra instituição que vem lucrando alto com a venda de diplomas de ensino superior é a Kroton Educacional, que há 40 anos atua no ensino básico por meio da marca Pitágoras. De acordo com o Valor Econômico, a instituição captou R$ 936 milhões ao abrir seu capital no ano passado.

Ainda de acordo com o jornal especializado em finanças e negócios, a principal organização estrangeira a operar no Brasil é a Laureate International Universities, que opera em 18 países com 30 instituições. Elizabeth Guedes, diretora do grupo, informou ao Valor Econômico que ele já investiu R$ 1 bilhão no país por meio de sociedade com cinco instituições: Universidade Anhembi Morumbi (SP), da qual detém 51% do capital; Universidade Potiguar (RN) e Business School São Paulo (BPS); Escola Superior de Administração, Direito e Economia – Esade (RS) e o Centro Universitário do Norte – UniNorte (AM).

Tendência à monopolização
Os empresários também compram outras instituições menores como forma de expandir suas redes. Nesse campo, a Hoper projeta uma tendência à monopolização, que deverá resultar em cerca de 20 grupos educacionais com cerca de 80% dos alunos da rede privada nos próximos anos. Ryon Braga, da Hoper, informou que pelo menos duas dezenas de fundos de investimentos dispõem de R$ 3 bilhões para investir no mercado da educação superior.

Lucros altos à custa do bom ensino e da soberania nacional
Enquanto os empresários comemoram os lucros, especialistas em educação, como o professor Francisco Miraglia Neto, da Universidade de São Paulo – USP, alertam para a má qualidade do ensino. Em audiência pública realizada em julho, na Câmara dos Deputados, para debater o Projeto de Lei 2.138/03, que impede a entrada de capital estrangeiro nas instituições educacionais com fins lucrativos, Miraglia se disse contrário aos investimentos estrangeiros na era da educação.

Miraglia Neto parte do pressuposto de que a educação é um bem público fundamental para a soberania nacional. Portanto, na visão dele, o debate não pode se restringir aos aspectos legais da matéria, mas deve abarcar também a ética.

Para o autor do projeto, deputado Ivan Valente (PSOL-SP), o ingresso de investidores estrangeiros na área da educação é um risco aos interesses e a soberania do Brasil. “O dinheiro estrangeiro não traz conhecimento. Pelo contrário, gera padronizações e diminui a qualidade", afirmou durante a audiência pública.

A proposta de Ivan Valente tramita na Câmara há cinco anos e sempre enfrentou muita resistência por parte dos empresários do setor, que defendem a não-limitação do capital estrangeiro e criticam, inclusive, a proposta do governo de limitar a 30% o investimento estrangeiro em empresas educacionais. Como o lobby dos empresários tem sido eficiente, o PL segue sua tramitação de forma lenta. Atualmente, a matéria está na Comissão de Educação, de onde seguirá para as comissões de Finanças e Tributação e de Constituição, Justiça e Cidadania – CCJC.

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