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Março/2007
'Fast
delivery' diploma: a feição da contra-reforma da educação
superior
Diante do
projeto “Universidade Nova”, apresentado pelo Reitor da
UFBA, a comunidade universitária, os movimentos sociais e setores
sociais não podem se furtar da luta para impedir que a velha
agenda destrua as universidades públicas.
Roberto
Leher
Professor da Faculdade de Educação
da UFRJ e coordenador do Grupo de Trabalho Universidade e Sociedade
do Clacso
Artigo
publicado originalmente na Agência Carta Maior, dia 14/2/07
O intento de
anunciar um marco temporal com o adjetivo “novo” é
uma prática usual na política, utilizada, em geral, para
ocultar vínculos indesejáveis com uma situação
anterior: Estado Novo, Nova República... Os exemplos são
inúmeros. Também nas políticas de educação
superior o uso do referido adjetivo é recorrentemente utilizado.
Na “Nova” República, na gestão de Jorge Bornhausen
no MEC (14/02/86 a 05/10/87), para enfraquecer o pujante movimento que
reivindicava a democratização da universidade, o governo
lançou o projeto “Nova Universidade” (Geres) que
institucionalizava muitos dos aspectos da contra-reforma de 1968. A
seguir, no governo Collor, o ministro Carlos Chiarelli (15/03/90 a 21/08/91)
apresentou a proposta de "Uma ‘nova’ política para
o Ensino Superior”. No governo Lula da Silva, o “novo”
muda de lugar passando a ser posposto, e o projeto é então
denominado “Universidade Nova”, proposta apresentada publicamente
pelo Reitor da UFBA, mas que em tudo coincide com as proposições
do MEC (nota 1).
O que justifica o uso dessa qualificação pelos “reformistas”
Bornhausen, Chiarelli e Genro-Haddad? A constatação de
que a universidade brasileira não está em sintonia com
os anseios da sociedade (com Bourdieu, leia-se, do mercado). O maior
problema, salientam, é o bolor europeu que recobre a universidade
pública, sinal evidente de seu envelhecimento. O diagnóstico
é o mesmo do Banco Mundial em seu tristemente famoso “O
BM e o Ensino Superior: Lições Derivadas da Experiência”
(1994): as universidades públicas, gratuitas, assentadas na indissociabilidade
entre ensino, pesquisa e extensão não servem para a América
Latina. Os governos da região deveriam adotar um modelo mais
simplificado em instituições não universitárias
e, preferencialmente, privadas ou resultantes de parcerias público-privadas
a exemplo do Prouni.
Em todos os intentos de contra-reformas dos anos 1980, 1990 e 2000,
o objetivo foi ajustá-las às necessidades da sociedade
(mercado). Mas como aproximá-las do mercado capitalista dependente
sem o risco de uma onda de críticas e mobilizações
dos segmentos que insistem que a universidade pública não
é uma instituição de e para o mercado? No caso
da última moda, a Universidade Nova, a idéia, conforme
os seus proponentes, é moldar a “concepção
acadêmica” a um contexto que, por força das “demandas
da Sociedade do Conhecimento e de um mundo do trabalho marcado pela
desregulamentação, flexibilidade e imprevisibilidade,
certamente se consolidará como um dos modelos de educação
superior de referência para o futuro próximo” (nota
2).
Mais claro impossível: o objetivo é converter o conhecimento
em mercadoria ou em insumo para agregar valor a uma mercadoria, conforme
requer a dita sociedade do conhecimento. Ora, conforme estudo de Mansfield
(nota 3), as inovações tecnológicas não
são feitas na universidade, mas na empresa. Assim, o objetivo
da Universidade Nova é completamente estranho ao necessário
debate sobre a função social das universidades no século
XXI (e também ao próprio problema da inovação
tecnológica realizada fora da universidade). Se essa primeira
indicação não bastasse, o projeto assume, ainda,
que a universidade deve formar recursos humanos para um mundo do trabalho
desregulamentado e flexível, expressões eufêmicas
para designar trabalhadores sem direitos e precarizados. Novamente,
cabe indagar: é esse o objetivo da universidade?
Na prática, como seria a “Universidade Nova”? Em
termos gerais, a proposta prevê os “Bacharelados Interdisciplinares
(BI) que irão propiciar formação universitária
geral, como uma pré-graduação que antecederá
a formação profissional de graduação e a
formação científica ou artística da pós-graduação”
(nota 4). A versão do MEC propugna que parte dessas poucas disciplinas
deverá ser ministrada por meio de educação a distância,
mesmo nos cursos presenciais. Ao final dessa rebaixada formação
“o aluno da Universidade Nova poderá enfrentar o mundo
do trabalho, com diploma de bacharel em área geral de conhecimento
(Artes, Humanidades, Ciências, Tecnologias)” (nota 5).
Com esses cursos invertebrados de curta duração (3 anos),
seria possível massificar o acesso ao ensino superior (117% até
2012) (nota 6), reduzindo a pressão por vagas nas instituições
públicas, sem a necessidade de maior aporte de recursos e de
novos professores e, portanto, perfeitamente ajustada ao Programa de
Aceleração do Crescimento que impedirá, por mais
de uma década, as correções dos aviltantes salários
dos professores e técnicos e administrativos e a contratação
de novos servidores.
O injusto gargalo do vestibular – herança da ditadura empresarial-militar
para acabar com os excedentes – seria multiplicado por dois: inicialmente,
os estudantes fariam o inadequado ENEM e, ao final do escolão
aconteceria a seleção meritocrática, no pior sentido
da expressão:
· Aluno(a)s vocacionados para a docência poderão
prestar seleção para licenciaturas específicas
com mais 1 a 2 anos de formação profissional, o que habilita
o aluno(a) a lecionar nos níveis básicos de educação;
· Aluno(a)s vocacionados para carreiras específicas poderão
prestar seleção para cursos profissionais (p.ex. Arquitetura,
Enfermagem, Direito, Medicina, Engenharia etc.), com mais 2 a 5 anos
de formação, levando todos os créditos dos cursos
do BI;
· Aluno(a)s com excepcional talento e desempenho, se aprovados
em processos seletivos específicos, poderão ingressar
em programas de pós-graduação, como o mestrado
profissionalizante ou o mestrado acadêmico, podendo prosseguir
para o Doutorado, caso pretenda tornar-se professor ou pesquisador (nota
7) (grifos e destaques meus).
Embora a proposta seja, à primeira vista, clara, o que facilita
o debate público, os autores não mantêm a mesma
clareza ao longo de todo o Documento. Nenhum projeto afirmaria que seu
único objetivo é adequar a instituição ao
mercado capitalista dependente e ao trabalho precarizado. Assim, ao
longo do Documento, os autores buscam justificativas epistemológicas
(interdisciplinaridade) e sociais (a especialização precoce
que estaria na base da evasão estudantil) para legitimá-lo.
Frente aos grandes objetivos da proposta apontados acima e ao seu conteúdo
concreto (uma terminalidade minimalista), este texto não privilegiará
essa linha de discussão, claramente acessória e ornamental,
pois o cerne é o ajuste ao modelo Banco Mundial/ OCDE-Bolonha/Schwartzman
(nota 8)/ MEC.
O processo de Bolonha propugna a criação de um espaço
europeu de educação superior que, na ótica dos
que mercantilizam a educação, pode significar um robusto
mercado educacional: essa é a expectativa da OCDE-Unesco que
incentiva a difusão do comércio transfronteiriço
de educação superior por meio da EAD. O modelo preconizado
pelo Relatório Attali, a graduação genérica
em três anos, representa a possibilidade de um sistema abreviado
e massificado que os mercadores gostariam de ver difundido em toda a
Europa. Os que adotam o espelho europeu para ver a ‘realidade
brasileira´ fingem esquecer que está em curso na Europa
um outro processo de articulação das instituições
de ensino superior, reunindo apenas as universidades de maior prestígio
e de tradição em pesquisa. Assim, estão em curso
na Europa dois níveis de integração:
a) a do Pacto de Bolonha: nos moldes dos “escolões”
que servem de barreira de contenção para que apenas uma
pequena parcela tenha acesso à graduação plena,
capaz de assegurar uma determinada formação, legitimando
a precarização generalizada da maioria (no caso francês,
80% dos estudantes);
b) a das instituições de excelência, objetivando
formar as classes dominantes e produzir conhecimento estratégico.
Tardiamente, esse modelo chegou como um paradigma a ser seguido nas
políticas para a universidade brasileira, justo em um momento
em que é consolidado o consenso na comunidade acadêmica
de que a chamada reforma da educação superior expressa
no PL 7200/06 é perniciosa para o futuro da educação
pública. No Brasil, o modelo Attali/ Simon Schwartzman/ MEC é
difundido como a nova “alternativa genial” da estação.
Tal como o PROUNI, apresentado como “idéia genial”
que possibilitaria vagas ditas públicas sem que o Estado necessitasse
desembolsar um centavo sequer, o projeto Universidade Nova objetiva
ampliar o número de vagas para estudantes nas instituições
públicas sem alterar o padrão medíocre de financiamento
da educação. A ausência de recursos novos para a
educação superior pública (confirmada pelo PL 7200/06)
é o fulcro do debate sobre as alternativas de graduação
aligeirada.
Caberia uma análise específica das conseqüências
desse modelo de bacharelado para as instituições privado-mercantis.
Falar em barbárie é pouco para caracterizar essas implicações.
A comunidade universitária, os movimentos sociais e os setores
sociais devotados à causa da educação pública
não podem se furtar da luta para impedir que a velha agenda,
sob o manto do “novo”, destrua o importante patrimônio
social que são as universidades públicas. No âmago
dessas lutas, os protagonistas terão de discutir uma agenda alternativa
para a educação superior brasileira com proposições
objetivas e originais capazes de empolgar outros setores sociais, em
especial da juventude. As lutas na América Latina confirmam que
as universidades, embora instituições milenares, são
instituições abertas ao tempo. Por isso, não podemos
esmorecer frente a mais essa ofensiva contra-reformista, assumindo papel
protagonista na defesa de uma agenda capaz de revolucionar a universidade
brasileira.
Notas
1) No âmbito do MEC, os fundamentos do Projeto Universidade Nova
estão no Projeto de Lei Orgânica (versão de dezembro
de 04) que previa graduação em três anos (Art. 7)
e o desmembramento da graduação em dois ciclos, o primeiro
deles de “formação geral” (Art. 21). Conforme
matéria de Demétrio Weber (MEC planeja criar 680 mil vagas
nas federais, O Globo, 14/2/07, p.8), o MEC assume o projeto Universidade
Nova e, para submeter as universidades ao projeto, irá exigir,
em contrapartida ao repasse de modestos recursos (cerca de R$ 600 milhões
/ano), a adoção da “pré-graduação”
(3 anos), o sistema de cotas (em uma acepção liberal),
a substituição do vestibular pelo precário ENEM,
o uso da educação a distância, mesmo em cursos presenciais,
entre outras medidas. Na matéria está explícito
que o repasse condicionado de recursos objetiva burlar a autonomia universitária.
2) Universidade Nova: Descrição da Proposta. Em http://www.universidadenova.ufba.br/,
acesso em 12/02/07.
3) Mansfield, Edwin 1998 Academic research and industrial innovation:
An update of empirical findings Research Policy 26, p. 773–776
4) Universidade Nova: Descrição da Proposta (op.cit)
5) Idem.
6) Demétrio Weber, op.cit.
7) http://www.universidadenova.ufba.br/arquivo/Projeto_Universidade_Nova.doc
8) No período mais recente a proposta de um curso “genérico”
e de curta duração foi retomada por Simon Schwartzman,
ex-presidente do IBGE na gestão Cardoso. Ver Antônio Góis.
Sociólogo defende curso de curta duração para carentes.
FSP, 03/06/2002. Em linhas gerais, a mesma alternativa é defendida
no modelo Universidade Nova, difundida pelo reitor da UFBA.