UnB: exemplo de sucateamento da universidade pública federalCamila Gonzalez
Com informações da ADUnB
A Universidade de Brasília foi projetada para ser um exemplo, valorizando a produção e inovação, tanto artística como intelectual, com embasamento
teórico-científico e oportunidade de pesquisa. Porém, tratando-se de problemas, a UnB não é diferente de todas as outras universidades públicas do país. Insuficiência de professores e servidores, deficiência na estrutura física do campus, falta de investimentos na área de extensão e pesquisas, são conseqüências de uma longa história de descaso do governo em relação ao ensino público brasileiro.
Na Faculdade de Comunicação, por exemplo, ocorre todos os semestres o mesmo problema: muitos alunos e pouco equipamento fotográfico para as
aulas práticas de fotografia. Atualmente, a Faculdade conta com oito câmeras digitais e 11 analógicas para os 140 alunos que fazem as disciplinas de fotografia. Com poucas máquinas disponíveis, o aprendizado acaba sendo prejudicado. "Tem muito aluno, a gente tem que se organizar para pegar equipamento, e ainda fazer os trabalhos com qualidade", diz Carolina Martins, aluna de Jornalismo.
O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Frederico Flósculo aponta problemas graves. Segundo ele, o crescimento do sistema de educação a distância é preocupante, já que está sendo implantado como um conhecimento exclusivamente formador de lucro. Outro problema é o do próprio papel da universidade como instituição pensante. "A universidade está virando uma marca a serviço de políticas públicas e privadas. Comportando-se como um bom comerciante, que não critica o governo e nem mesmo faz uma defesa da cidadania" afirma.
A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo enfrenta problemas há anos, como o atraso na adequação dos ateliês, que ainda são os mesmos projetados para a década de 60. "Tudo está baseado em pranchetas, não há computadores", afirma Frederico. Não bastasse esse problema, Suzana Rezende, aluna de Arquitetura, conta que muitas vezes, quando ocorrem aulas no ateliê, faltam cadeiras para algumas pessoas, que têm que procurar cadeiras vazias em outras salas. "Outro problema é a péssima condição das pranchetas, que por serem muito velhas estragam os nossos trabalhos".
No Instituto de Biologia, as reclamações são semelhantes. Ambientes inadequados e falta de material são apontados como mecanismos de precarização do trabalho docente e, mais do que isso, uma forma de submeter os professores, estudantes e pessoal técnico-administrativos a doenças ocupacionais e a expô-los a acidentes. "Há mais de dez anos estão fazendo novo prédio para a Biologia. Ao que tudo indica a partir do ano que vem fica pronto, mas com anos de atraso, o que mostra a falta de prioridade com o investimento na educação. Porém mesmo com a gente saindo dessas instalações antigas, outras pessoas vão ser deslocadas para cá, e os problemas físicos vão continuar", diz o professor Antonio Sebben, do Instituto de Biologia.
Do Instituto Central de Ciências - ICC Norte ao Sul, os professores queixam-se das salas de aula, salas de professores e laboratórios, tanto os localizados no subsolo como no térreo, que consideram inadequados, desconfortáveis, sem ventilação, sem iluminação, com reverberação. Os móveis ultrapassados não respeitam a ergonometria. As divisórias das paredes ainda são de uma substância que não é mais utilizada, pois traz problemas respiratórios.
O subsolo do ICC, por exemplo, é visto como um local de alta periculosidade, em razão da falta de saídas de emergência em locais nos quais a utilização de produtos tóxicos, inflamáveis, radioativos e bacteriológicos pode pôr a comunidade universitária em iminente perigo por causa das condições precárias do espaço físico.
Banheiros precários - A falta de banheiros para suprir as necessidades de um público diário estimado em 35.578 mil pessoas é outro problema. Os que existem são muito precários. A encanação que é muito antiga acaba gerando a impressão, devido ao mau cheiro, de que o banheiro não foi limpo, mesmo que tenha sido. Segundo informações da prefeitura, são apenas 24 banheiros públicos em todo o ICC, local em que, segundo a prefeitura, 50% das disciplinas oferecidas pela instituição são ministradas.
Professores investem dinheiro do próprio bolso
A falta de condições de trabalho na UnB não se restringe aos problemas do espaço físico. Para haver produção, os professores é que criam suas condições de trabalho. A falta de material é uma constante. Os docentes de praticamente todos os institutos e faculdades tentaram reduzir a precariedade do ambiente de trabalho investindo em suas salas, instrumentalizando-as com aparelhos de ar-condicionado, ventiladores, computadores, livros, lâmpadas, grades de proteção e até forro no teto com dinheiro do próprio bolso.
Em relação ao REUNI, o professor Flósculo é categórico em dizer que é uma grande irresponsabilidade. "A universidade pública precisa ser analisada de forma séria, não através de uma política escapista." Segundo ele, essa não discussão do REUNI por parte do governo revela duas coisas: a falta de diálogo com o universitário brasileiro e a certeza de que a universidade cada vez mais acrítica vai aceitar esse tipo de má política.
O estudante de Ciência Política, Danilo Silvestre, membro do Conselho Universitário da UnB, acha equivocada a adesão ao REUNI sem a ampla discussão com os universitários. "O REUNI é contraditório. Falam que vão abrir mais 20 cursos, contratar mais professores, aumentar vagas de alunos. Porém só contratarão 290 professores. Isso torna essa relação da quantidade aluno/professor imprecisa". Além disso, lembra, é um programa que não garante o repasse de verbas às universidades, principalmente com as mudanças de governo.