Adoecimento e condições de trabalho foram temas do segundo dia do VIII Seminário de Saúde do(a) Trabalhador(a) Docente 

Publicado em 19 de Março de 2023 às 10h07. Atualizado em 20 de Março de 2023 às 16h38

* publicado em 18/3, atualizado para ajuste de editoria

Cerca de 70 participantes participaram, no sábado (18), do segundo dia do VIII Seminário Nacional de Saúde do(a) Trabalhador(a) Docente do ANDES-SN, “Trabalho docente: implicações na saúde e reflexos na vida”, em São Paulo. A segunda mesa, com o tema "O papel do estado e a saúde do(a) trabalhador(a). Como as IES veem o SUS na perspectiva da saúde do(as) servidores(as)", foi apresentada por Bruno Bechara Maxta, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que apontou que boa parte das conquistas na área da Saúde é resultado das lutas da classe trabalhadora.

"Hoje só temos o SUS em decorrência dos enfrentamentos da classe trabalhadora à ditadura militar e das greves no ABC paulista na década de 1980. Talvez o movimento da Reforma Sanitária não tivesse tido o impulso que teve sem essas lutas", afirmou. As propostas da Reforma Sanitária resultaram na universalidade do direito à saúde, oficializado com a Constituição Federal de 1988 e a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), em busca da melhoria das condições de vida da população.

O docente explicou que “sem luta não há saúde para o trabalhador” e afirmou que “se deixarmos sermos consumidos pelas forças de produção iremos adoecer mais”. Para ele, a doença é a manifestação dessa tensão entre classes e é preciso pensar em como mitigar o processo de desgaste e reprodução da força de trabalho. 

"Precisamos retomar o movimento entre as ciências da saúde e as experiências dos trabalhadores e das trabalhadoras e defender aquilo que é a nossa existência, a nossa força de trabalho, o nosso corpo. E da nossa particularidade, da nossa fração docente, parte do trabalho de ensino, pesquisa e extensão é justamente produzir o conhecimento sobre trabalho e saúde docente. Nós temos, enquanto categoria e organizados sindicalmente, que entender melhor o que provoca essas manifestações e onde faremos essas alterações nos nossos processos de produção de conhecimento e de trabalho, dentro dessa universidade 4.0 que estamos vivendo”, disse. O docente finalizou a sua palestra parafraseando a insígnia do movimento operário italiano da década de 1960: "Saúde não se vende, não se monetiza, não se delega, se defende e, portanto, se luta, se enfrenta". 

Raquel de Brito Sousa, 1ª vice-presidenta da Regional Pantanal do ANDES-SN e da coordenação do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA) do Sindicato Nacional, e que conduziu a mesa, corroborou a fala do palestrante. Ela citou como exemplo a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), que é uma empresa pública de direito privado, criada em 2011, e que administra a maior rede de hospitais públicos do país e presta serviços à comunidade, no âmbito do SUS.

“Quando falamos da Ebserh, por exemplo, estamos falando do trabalhador e da trabalhadora docente. A privatização dos hospitais universitários limitou o acesso da comunidade acadêmica, prejudicou e precarizou o trabalho de docentes, técnicos e residentes. Muitas das nossas lutas dizem respeito à saúde do trabalhador e da trabalhadora docente porque quando falamos de saúde não estamos falando apenas do fenômeno do adoecimento, do que está aparente, estamos falando também de todo um processo de trabalho que vai ter centralidade nos nossos desgastes e que, portanto, vai estar com uma relação direta no nosso processo de saúde e adoecimento”, explicou.

Saúde e condições de trabalho
O seminário prosseguiu pela tarde com a mesa “Saúde e condições de trabalho do(a)s docente”. Eblin Farage, da Universidade Federal Fluminense (UFF), afirmou que a centralidade da sociedade continua sendo o trabalho e que o debate sobre a saúde da trabalhadora e do trabalhador passa pela centralidade que o trabalho tem na sociedade.

Foto: Daniel Garcia

Para Farage, “o emprego no Capital é absolutamente aviltante e não existe possibilidade de no capitalismo o emprego não ser aquele que explore”. A partir do conceito apresentado, a docente trouxe algumas reflexões. “Quem somos nós, docentes? Nós não somos trabalhadores? Por que uma parte da nossa categoria se autocaracteriza como intelectuais, pesquisadores e não como trabalhadores? Se nós não nos reconhecemos como trabalhadores, não reconhecemos que as transformações do mundo do trabalho nos afeta igualmente”, pontuou.   

A docente da UFF afirma que apesar das e dos docentes terem feito uma escolha pessoal e política pela profissão, isso não as e os exime da exploração. “Os atravessamentos que nós temos são diversos. Uma delas é a dificuldade de não nos reconhecermos como trabalhadores e ao não nos reconhecermos como trabalhadores não admitimos que o nosso trabalho que tanto gostamos também nos adoece, com os problemas de coluna e visão, adoecimento mental por conta das relações desumanas e hierárquicas estabelecidas dentro dos departamentos das universidades, porque é um sistema que nos impulsiona a competir entre nós em uma busca pelo produtivismo”, completou. 

Já Alexandre Galvão, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), abriu a sua fala com uma citação de Rosangela Soldatelli. "Os professores trabalhando em casa, na grande maioria, trabalham o tempo todo. A jornada ampliou demasiadamente. Presencialmente explica-se, orienta-se, tira-se dúvidas, avalia-se de forma coletiva. Agora isso é feito, na maioria dos casos de forma individualizada, o que faz com que os professores estejam o tempo todo à disposição. Esta sobrecarga de trabalho poderá potencializar os já terríveis processos de adoecimento dos professores", afirmou.

Galvão contou que, nos últimos 30 anos, as transformações nas relações de trabalho - produto do aprofundamento da mercantilização da Educação e da própria desresponsabilização do Estado em relação ao financiamento do ensino superior público -, se encontram no bojo das próprias transformações do sistema capitalista, representado na “intensificação e a precarização do trabalho, no aumento da carga horária de trabalho, na baixa remuneração, na incorporação de novas tecnologias à prática docente, no aumento do produtivismo acadêmico e de assédios de mais diversas naturezas e, ainda, nas ausências de setores responsáveis na universidade para a formulação de uma política de atenção à saúde do trabalhador e da trabalhadora”.

O docente citou algumas pesquisas sobre as condições de trabalho e adoecimento docente no período da pandemia. Entre elas, uma realizada pela Associação dos Docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Asduerj – Seção Sindical do ANDES –SN), sob a coordenação da professora Amanda Moreira da Silva, e outra pela Associação dos Docentes da Universidade Estadual de Campinas (Adunicamp SSind.).

Após a mesa, houve a apresentação da dupla de rappers da Zona Leste de São Paulo, Sara Cruz e Dabow B. As letras das músicas são marcadas por histórias sobre o mundo e a realidade em que vivem: amor, racismo, machismo, intolerância religiosa, oportunidades e as lutas travadas diariamente.

Em seguida, ocorreu o painel com o “Levantamento de saúde do(a) trabalhador(a) docente” realizado pelas seções sindicais do ANDES-SN no período da pandemia da Covid-19. Depoimentos pessoais e pesquisas feitas sobre adoecimento docente foram apresentadas.  

Participaram da mesa Adriana Jardim, da Associação dos Docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Aduenf SSind.), Michele Schultz, da Associação de Docentes da Universidade de São Paulo (Adusp SSind.), Amanda Moreira, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e ex-diretora da Asduerj SSind., Vinicius Pinheiro, da Associação dos Docentes da  Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Adunirio SSind.), e Alexandre Cunha, da Associação dos Docentes da Universidade Federal do Espírito Santo (Adufes SSind.). 

As e os painelistas expuseram as experiências da categoria docente durante a pandemia da Covid-19, contextualizando para o momento atual. A sobrecarga de trabalho, o aumento do trabalho com muita frequência nos finais de semana e os problemas de saúde relacionado ao estresse devido à intensa demanda de trabalho, o luto vivido pela categoria que perdeu familiares, amigas e amigos e, ainda, como esse aumento de travalho impactou a categoria a ponto de que uma parcela não conseguir lutar por suas progressões na carreira foram alguns dos pontos apresentados pelas professoras e pelos professores. 

Neila Souza, 1ª vice-presidenta da Regional Planalto e da coordenação do GTSSA do ANDES-SN, e que mediou a mesa, afirmou que as pesquisas apresentadas irão instrumentalizar a luta que o Sindicato Nacional fez, e faz, ao longo dos seus 42 anos de história.

“As seções sindicais apresentaram as suas experiências e pesquisas no período pandêmico e como resultado o adoecimento docente, a precarização de trabalho que se intensificou na pandemia, o assédio moral associado ao produtivismo acadêmico recaindo, principalmente, nas mulheres. Então, essas pesquisas têm como intuito ter uma ideia da realidade enfrentada pela categoria, dar apoio e, ainda, apontam como podemos buscar formas de mobilização para o enfrentamento e também de amparar as e os docentes”, finalizou. 

VIII Seminário
O VIII Seminário Nacional de Saúde do(a) Trabalhador(a) Docente do ANDES-SN é organizado pelo GTSSA do Sindicato Nacional em conjunto com a Associação de Docentes da USP (Adusp - Seção Sindical do ANDES-SN). É o primeiro evento do Sindicato Nacional sobre saúde do trabalhador e da trabalhadora docente desde o início da pandemia de Covid-19. O último ocorreu em 2019, na cidade de Campina Grande (PB). O evento se encerra neste domingo (19) no Anfiteatro Parasitologia da Faculdade de Medicina da USP.

Saiba mais
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