ENTREVISTA | Visibilidade Lésbica

Publicado em 28 de Agosto de 2020 às 16h39

Este sábado, 29 de agosto, marca o Dia da Visibilidade Lésbica. A data foi instituída em referência ao primeiro Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), ocorrido em 29 de agosto de 1996, no Rio de Janeiro. Encerra o calendário datas do mês voltado para lembrar a existência das mulheres lésbicas, as violências sofridas por elas e as pautas que o movimento reivindica.

Para falar da importância da data e da luta pelo fim das opressões às mulheres lésbicas, o ANDES-SN entrevistou a professora Joana Rabelo. Docente do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira - CAp/UERJ, ela é mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio e, atualmente, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Arte da Universidade do Estado do Rio De Janeiro (Uerj). Confira:

ANDES-SN: Por que é importante ter um dia para falar sobre a visibilidade lésbica?

Joana Rabelo: Ter um dia para visibilidade significa que nós, mulheres lésbicas, de alguma maneira fomos invisibilizadas na nossa sociedade. O padrão imposto pela sociedade é o padrão heteronomartivo, que tende a taxar todas as mulheres de um mesmo modo, sem reconhecer a diversidade das mulheres e, em especial, de suas escolhas referentes a identidade de gênero e da afetividade. Nós, mulheres lésbicas, fomos colocadas à margem da sociedade, por um processo histórico de silenciamento e violências, como o “estupro corretivo”, expulsão de casa, violência verbal, entre tantas outras. Ter um dia de visibilidade traz isso à tona e é importante para construir um espaço de debate e reflexão na sociedade, para caminharmos na ampliação dos direitos e garantias das mulheres à vida, numa sociedade que entenda e respeite a diversidade dos corpos e seus vários modos de existência. 

ANDES-SN: De que formas o ativismo pelos direitos das lésbicas e as questões relativas ao movimento feminista se chocam, ou se complementam?

Joana Rabelo: Acredito que, em primeiro lugar, é importante reconhecer que o feminismo não é um movimento homogêneo e único, ao contrário, ele pode ser pensado enquanto “feminismos”, no plural, e tem por desejo construir respostas frente às diferentes maneiras de se existir  como mulher no mundo. A percepção de que as necessidades de uma mulher branca e heterossexual são diferentes das necessidades de uma mulher negra, ou de uma mulher lésbica, ou transexual impõem aberturas dentro do movimento, faz com que ele obrigatoriamente se repense. Nesse sentido, o ativismo pelos direitos das lésbicas pode ser compreendido como uma reivindicação da qual o feminismo não pode ser furtar se quiser integrar as necessidades das mulheres na sua pluralidade.

ANDES-SN: Você acha que a pandemia da Covid-19 acrescentou novas vulnerabilidades às lésbicas?

Joana Rabelo: As mulheres lésbicas estão sofrendo os efeitos da pandemia como toda a sociedade. No entanto, é importante ressaltar que as que estão em vulnerabilidade social e econômica sofrem mais agudamente as consequências da pandemia, visto que o aumento do desemprego, diminuição do acesso aos serviços de saúde e aumento da violência doméstica também atingem esse grupo. 

ANDES-SN: Como se encontram as lutas ativistas pelas especificidades de gênero e a mobilização em favor de direitos e contra discriminações?

Joana Rabelo: A palavra de ordem, atualmente, para todos os movimentos em defesa dos direitos é a resistência e, entre as mulheres lésbicas, não é diferente. Estamos atravessando um momento sombrio no que diz respeito à garantia dos direitos das minorias. Todos os dias ataques são feitos e isso exige de nós organização e atenção, de modo que, para nós lésbicas, os ataques não só são de um vírus, mas de todo um sistema que, dia após dia, nos tem negado o direito à vida. Assim, acredito que os grupos, partidos e coletivos estão fazendo o sempre fizeram na história desse país: produzindo mobilização e resistência, só que agora estamos limitados pelo meio, experimentando uma nova forma de mobilização digital. 

ANDES-SN: Uma pesquisa realizada pela Unicamp e pela UFMG apontou que 44% das lésbicas têm medo de ter a saúde mental afetada durante a pandemia. Coincidentemente, um momento em que o acesso a atendimentos e tratamentos fica dificultado. Pode comentar?

Joana Rabelo: O cuidado à saúde de mulheres lésbicas sempre foi dificultado, seja pelo desconhecimento ou pelo preconceito dos profissionais de saúde. Neste momento, aliado a isto, a epidemia nos impôs o distanciamento social e, consequentemente, a privação do contato com os nossos pares. É relevante dizer que, para muitas das mulheres lésbicas, a relação com amigos e pessoas próximas é muito importante, uma vez que as relações familiares nem sempre são saudáveis por conta do preconceito e discriminação, fazendo com que os laços de afeto se formem para além do parentesco.  As incertezas diante do futuro, a solidão prolongada e as demais questões da pandemia, sem dúvida, vão aumentar as questões de saúde mental. 

ANDES-SN: A inviabilização da mulher lésbica contribui para a negação dos direitos dessas mulheres. O dossiê sobre Lesbocídio elaborado pelo Grupo de Pesquisa Lesbocídio, da UFRJ, aponta que, entre 2000 e 2017, foram registrados 180 homicídios de lésbicas. Somente entre 2014 e 2017, foram 126 casos, registrados no interior do estado de São Paulo, mesmo considerando a imensa subnotificação. Como reverter esse quadro?

Joana Rabelo: Para reverter esse quadro é importante a informação e o “desmonte” do preconceito social. Outra ação importante é a realização de campanhas nacionais que incentivem as denúncias, aliadas à garantia de um sistema de proteção das mulheres em situação de risco. 

ANDES-SN:  Qual é o seu conselho para jovens ativistas feministas lésbicas na atual conjuntura? Quais seriam as estratégias de organização mais eficazes?

Joana Rabelo: Acredito que são as jovens ativistas feministas lésbicas que têm muito a nos ensinar. Como professora, tenho cada vez mais acompanhado mulheres jovens se organizando e comprometidas com as causas do ativismo, tanto no campo do feminismo com na questão das mulheres lésbicas. Essas jovens mulheres têm uma percepção diferente do seu papel na sociedade e têm nos inspirado a continuar na luta. 

*As opiniões contidas nesta entrevista são de inteira responsabilidade dos entrevistados e não necessariamente correspondem ao posicionamento político deste Sindicato

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