Falta de equipamentos de proteção é a face visível do desmonte do SUS

Atualizado em 09 de Abril de 2020 às 10h51

 

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) emitiu nota na terça (7 de abril), informando que o número de óbitos entre seus inscritos era 16 - até o final da tarde. A ressalva se fez necessária dada a velocidade com que profissionais da área de saúde têm sido contaminados pelo novo coronavírus (Sars CoV-2). 

Assim como tem feito com as demais mazelas que assolam o País, a pandemia de Covid-19 não cria, mas ressalta as desigualdades e contradições. Não por acaso, o dilapidado estado do Rio de Janeiro é líder na contagem de trabalhadores da Saúde infectados, atingindo o impressionante percentual de 25% na rede pública. Espanha e Portugal, a título de comparação, ostentam uma taxa de 20%, e Itália, 15%. 

Os dados foram revelados por pesquisa realizada por uma força-tarefa pioneira, formada para testagem molecular do Sars CoV-2, agregando mais de 60 pesquisadores, médicos e enfermeiros da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e revelam dois fatos igualmente ameaçadores: a ausência de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e a imensa subnotificação de casos na população geral. 

Desde o surgimento dos primeiros casos, na segunda quinzena de março, o número enfrentou crescimento exponencial. A pesquisa, realizada com 140 amostras testadas, obteve como resultado uma taxa de 50% de infectados - o que demonstra cabalmente que os números divulgados atualmente não correspondem à realidade. 

Cruzamento de dados dos cartórios de registro civil do País com aqueles fornecidos pelo Ministério da Saúde revela, em parte, o tamanho do problema. Plataforma do Observatório Nacional de Casos de Alta Complexidade e Grande Impacto e Repercussão levantou que, até segunda-feira (6 de abril), foram registradas 736 mortes em decorrência da Covid-19; para o Ministério da Saúde, foram 553, número 33% menor.


Tragédia anunciada

A falta crônica de equipamentos de proteção, o desmantelamento do Sistema Único de Saúde, o encerramento do Programa Mais Médicos, nada disso é novidade; o que mudou no presente ano foi a visibilidade que a estratégia de desmonte das políticas públicas ganhou com a chegada da pandemia. 

Em todos os  hospitais da rede pública, ambulatórios, Upas e Amas , há falta de EPIs como macacões, máscaras, gorros, álcool em gel. Na segunda quinzena de março, o Cofen recebeu 1.374 denúncias de falta ou escassez de equipamentos de proteção individual; o Conselho Federal de Medicina, mais de 1500. No estado de São Paulo foram registradas 449 reclamações por falta ou inadequação de EPIs, seguido por Minas Gerais, com 187; Rio Grande do Sul com 175 e Rio de Janeiro, com 148 denúncias.

O colapso no Sistema de Saúde é de tal monta que, hoje, o medo não é apenas o de ser acometido pela Covid-19; qualquer doença ou pequeno acidente pode se tornar uma tragédia, caso se faça necessário o atendimento hospitalar. A perda de um ente, que já é por si uma circunstância terrível, atualmente é acrescida da impossibilidade de realizar um velório. Na cidade de São Paulo, até para proceder à cremação há uma fila de espera de mais de 24 horas. 

Também na capital paulista, os dois hospitais particulares considerados ‘de ponta’ no País, o Sírio-Libanês e o Albert Einstein, já tiveram mais de 500 profissionais diagnosticados com a doença, enquanto a rede pública contou, em março, 1.080 afastamentos por suspeita de contaminação.

Dupla vulnerabilidade

Se para a população geral a situação é desesperadora, para os trabalhadores e trabalhadoras da Saúde o desgaste é imensuravelmente maior. Nunca foi tão difícil ser fiel ao juramento de Hipócrates. Corpo médico, enfermagem, pessoal técnico e de limpeza não têm tempo para descansar e muito menos a possibilidade de voltar para casa, visto que o perigo de contaminar a própria família é enorme. Em muitos locais ao redor do mundo, os profissionais contaminados cumprem a quarentena em hotéis reservados especialmente para essa finalidade.

Apesar de aplaudidos nas janelas, os profissionais que atendem na linha de frente da Covid-19 relatam também discriminação e contam que são encarados como possível fonte de contaminação por vizinhos, conhecidos e até parentes. Eles realmente têm uma chance maior de transmitir o vírus, o que pode ser explicado pela carga viral, termo que se refere à concentração de patógenos no organismo. Dados de uma epidemia anterior, também provocada por coronavírus, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), em 2002 e 2003, revelam que 21% dos casos detectados envolviam profissionais de saúde. Como o agente etiológico era mais letal e menos transmissível no episódio da década passada, tudo indica que o contágio na atual pode ter uma dimensão muito maior. Segundo a OMS, enquanto de um paciente comum é esperado que tenha infectado 2 a 3 pessoas, um profissional hospitalar pode contaminar de 9 a 14 pessoas. 

A solução, evidentemente, não é a segregação. Ao contrário, é a justa disponibilização de equipamentos de proteção, essenciais para proteger não apenas profissionais mas a toda a comunidade; e isso, na dupla mão de que esses mesmos profissionais, uma vez afastados, deixam carentes de atendimentos e cuidado toda a população.

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