Sob as boas-vindas dos cazumbás, figuras místicas do bumba meu boi maranhense, teve início nesta sexta-feira (3), em São Luís (MA), o 69º Conad do ANDES-SN. Com o tema "Guarnicê a luta pela educação pública na terra da Balaiada: contra o imperialismo e a extrema direita", o evento reúne mais de 300 docentes de diversas regiões do país.

Sediado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e organizado pela Associação dos Professores da UFMA (Apruma - Seção Sindical do ANDES-SN), o 69º Conad segue até domingo (5), com o objetivo de atualizar o plano de lutas geral e os planos setoriais da categoria, aprovados no 44º Congresso, em Salvador (BA), além de apreciar a prestação de contas da entidade, do último período.

A mesa de abertura foi composta por diversos e diversas representantes sindicais e de movimentos sociais e conduzida por Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, que destacou os avanços do Sindicato Nacional em diferentes lutas, mas também os desafios enfrentados pela categoria. “São esses desafios que temos debatido e refletido desde o ano passado, e acreditamos que apresentaremos a melhor formulação para fortalecer ainda mais o nosso sindicato”, afirmou.

Em seguida, o presidente da Apruma SSind., Luís Eduardo Santos, deu as boas-vindas às e aos participantes e destacou a importância do evento em um contexto de conjuntura difícil, além de agradecer à comissão organizadora local e às equipes envolvidas na realização do Conad. “Vivemos um momento de conjuntura bastante difícil, e espero que tenhamos três dias de muito debate. Não poderia deixar de agradecer às pessoas que estiveram diretamente envolvidas na organização deste Conad”, ressaltou.

João Coelho, presidente do Sindicato dos Docentes das Universidades Estaduais do Maranhão (Sinduema – Seção Sindical), chamou atenção para os problemas enfrentados pelas universidades estaduais do Maranhão, especialmente a baixa execução orçamentária e a precarização do trabalho docente.
“Embora o orçamento das universidades esteja previsto na Lei Orçamentária Anual, na prática apenas cerca de 25% desses recursos são efetivamente executados. Essa é uma situação gravíssima, que compromete o funcionamento das instituições e precisa ser enfrentada”, apontou. Ele também denunciou a alta proporção de docentes substitutos, cerca de 40%, nas instituições estaduais e defendeu a necessidade de enfrentamento coletivo dessas pautas.

O estudante Vinícius Sócrates, do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMA, destacou o Maranhão como território de resistência, evocando a Balaiada, e defendeu a universidade pública como direito social. Ele criticou os cortes orçamentários e a precarização das instituições, além de reforçar a necessidade de valorização de docentes, técnicas e técnicos e de enfrentamento ao negacionismo científico. “A universidade pública não se rende, não se recua e continuará sendo patrimônio do povo brasileiro. Viva a universidade pública, viva o movimento identitário e viva a sociedade”, saudou.

Representante do Conselho Gestor da proposta de criação da Reserva Extrativista (Resex) Tauá-Mirim, a moradora da zona rural de São Luís, Jercenilde Silva, destacou o papel das comunidades tradicionais e denunciou as ameaças provocadas por grandes empreendimentos na região. A Resex, localizada na Baía de São Marcos, reúne nove comunidades que resistem há mais de duas décadas pela garantia de seu território e modo de vida.
“É um território onde a natureza ainda pulsa, com palmeiras de juçara, buriti e babaçu, com manguezais e guarás que ainda resistem. Aqui represento pescadores, agricultores, extrativistas, idosos e jovens que mantêm suas raízes e lutam para preservar suas histórias e seu modo de vida”, contou.
Ela alertou para o avanço de projetos portuários, ferroviários e rodoviários na região, para escoamento de grãos e minérios, que ameaçam deslocar comunidades tradicionais. “Já vimos esse filme antes: populações sendo retiradas de suas terras para dar lugar a grandes empreendimentos. Hoje, muitas comunidades enfrentam falta de água, de terra e de condições básicas de vida, enquanto se vendem promessas de desenvolvimento e empregos”, disse.
A representante também destacou a importância da articulação com a universidade e com pesquisadoras e pesquisadores na defesa do território. “Tauá-Mirim alimenta a ilha de São Luís com peixe, camarão e caranguejo, e resiste também graças ao conhecimento e à aliança com quem defende essa causa. Viva a Resex Tauá-Mirim”, acrescentou.

Antônio Mariano Azevedo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de 3º Grau no Estado do Maranhão (Sintema), relatou a greve das trabalhadoras e dos trabalhadores e a mobilização em defesa da paridade nas eleições para a reitoria. “Estamos em uma luta ímpar na UFMA. A comunidade universitária está lutando pela paridade de 33%, 33% e 33%. Já que não conseguimos o voto universal, defendemos que essa seja a forma mais justa de representação. Queremos que os companheiros e as companheiras que participam deste congresso sejam solidários a essa luta”. Ele também alertou para o avanço de grupos extremistas na sociedade.

Ao final da mesa de abertura, Cláudio Mendonça, relacionou as lutas nacionais da categoria à história de resistência do povo maranhense, destacando o papel das experiências populares e das comunidades tradicionais como inspiração para a defesa da educação pública, da democracia e dos direitos da classe trabalhadora.
"Estamos na Ilha Rebelde, na Ilha do Amor. Uma ilha que sacudiu as ruas de São Luís em plena ditadura empresarial-militar, garantindo a meia-passagem; na Jamaica Brasileira, onde o reggae se tornou uma forma de resistência cultural; na terra de Manuel da Conceição, de Maria Aragão e da Balaiada, revolta popular que uniu negros escravizados, indígenas e brancos empobrecidos contra as elites escravocratas. Realizar este 69º Conad aqui implica reconhecer essa história de luta. A exemplo do cazumbá, é preciso abrir o terreiro, proteger os brincantes e nos inspirar na riqueza da diversidade para enfrentar toda a brutalidade que incide sobre as nossas vidas", concluiu.
Plenária de Instalação
Em seguida, ocorreu a Plenária de Instalação, que aprovou a alteração do cronograma dos trabalhos, com previsão de término do 69º Conad no domingo, dia 5, às 15h, podendo a plenária de encerramento ser prorrogada por até uma hora.

Compuseram a mesa da plenária: Cláudio Mendonça; Fernanda Maria Vieira, secretária-geral; Sérgio Barroso, 1º tesoureiro; Jacqueline Lima, 1ª secretária do ANDES-SN.
Universidade & Sociedade
Durante a mesa de abertura, foi lançada a edição nº 78 da revista Universidade & Sociedade, sob o tema “45 anos do ANDES-SN: organização docente e luta em defesa da educação pública”. Participaram da apresentação representantes da comissão editorial da publicação: Annie Hsiou, Letícia Mamed, Lila Cristina e Eralci Terézio.

Além dos 45 anos do ANDES-SN, a edição celebra os 35 anos da publicação e reproduz a capa da primeira revista, de 1991. A revista inaugura a seção "Páginas do Tempo", com texto do professor Juarez Duayer sobre a trajetória do Sindicato Nacional. A publicação também reúne uma reportagem fotográfica com registros históricos das seções sindicais da Unicamp, UFMG, Apruma e ADUFG, além de uma entrevista inédita com o sociólogo Michael Löwy, franco-brasileiro, e um dos maiores pensadores marxistas brasileiros. Um trecho da entrevista está disponível no canal do ANDES-SN no YouTube, e foi exibido durante a abertura do Conad.
Publicação semestral do Sindicato Nacional, a Universidade e Sociedade é voltada para o fomento de pesquisas e debates relacionados tanto às experiências no campo da pesquisa acadêmica quanto às experiências sindicais e sociais acerca de temas relevantes para as lutas empreendidas por docentes em defesa de uma universidade pública, gratuita, laica e de qualidade. Acesse aqui a revista.
Trabalho e Saúde Docente
Também foi lançado o relatório final da Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente. O documento foi apresentado por integrantes do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA): Jacqueline Lima, Virgínia Viana, Fernanda Mendonça, Lívia Santos, Lila Luz e José Osvaldo Cunha.

O levantamento aponta que oito em cada dez docentes se sentem sobrecarregados e quase 70% trabalham regularmente aos fins de semana.
Para Fernanda Mendonça, os resultados revelam uma piora das condições de trabalho docente, marcada pelo aumento de casos de assédio, violência e deterioração das relações de trabalho. Também há intensificação da carga laboral, com jornadas que ultrapassam a carga contratual, incluindo fins de semana e feriados.
“O relatório é um importante instrumento para fortalecer o debate nas seções sindicais e subsidiar a luta em defesa das condições de trabalho e da saúde docente. Nosso convite é para que seja amplamente divulgado e debatido nas assembleias e encontros regionais e demais atividades das seções sindicais. Agradecemos a participação de todas e todos e esperamos que este material contribua para fortalecer a organização da categoria”, disse Mendonça. Confira o relatório aqui.
Apresentação cultural
Antes do início da plenária de abertura, o ator e cantor maranhense Vicente Melo protagonizou um trecho do aclamado espetáculo musical "João do Vale, o Gênio Improvável", inspirado na vida e carreira do cantor e compositor maranhense, João do Vale.

A montagem destaca clássicos como “Carcará” e dialoga com as influências do Tambor de Crioula, do Divino Espírito Santo, baião, forró e outros ritmos.
Comissão de Assédio
Conforme decisão congressual, foi constituída a Comissão de Assédio, composta pelo diretor do Sindicato Nacional Jacob Paiva, e as diretoras Luciana Silva e Gracinete de Souza, além de Edna Silva e Thiago Pereira, docentes da UFMA.

Fotos: Eline Luz/Imprensa ANDES-SN