Desigualdade e tecnologia marcam abertura de Seminário Internacional

Publicado em 10 de Abril de 2019 às 16h06. Atualizado em 10 de Abril de 2019 às 18h08

Desigualdade social e tecnologia marcam abertura do Seminário Internacional do ANDES-SN

Francesco Schettino: Há uma relação que vincula a concentração de renda e o desenvolvimento tecnológico no capitalismo.

Na manhã de quarta-feira (10), começou o Seminário Internacional “Universidade, Ciência e Classe em uma era de crises”, em Brasília (DF). Organizado pelo ANDES-SN, o evento ocorre no auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (Adunb – SSind.)

Antonio Gonçalves, presidente do ANDES-SN, e Eblin Farage, secretaria geral do Sindicato, participaram da mesa de abertura. Eles ressaltaram a importância do seminário para a troca de experiências e na identificação de estratégias para enfrentar o Capital. Osvaldo Coggiola, 2º vice-presidente da regional São Paulo e encarregado de Relações Internacionais do ANDES-SN, ressaltou a importância de resgatar o princípio internacionalista da classe trabalhadora.

“Ciência, Tecnologia e Capital: a ‘Caixa Preta’ da inovação” foi o tema da primeira mesa. Ela contou com a presença de Francesco Schettino, docente do departamento de jurisprudência da Universidade da Campânia, na Itália. Schettino estuda temas como economia e desigualdade social.

Segundo Francesco Schettino, a Ciência e o desenvolvimento tecnológico estão completamente submetidos ao capital. “No modo de produção do Capital, a desigualdade e a desarmonia são pressupostos e não consequência. Eles são elementos centrais para compreender, nessa etapa, que muitos dos fenômenos econômicos e sociais são polarizados. Estão criando um abismo cada vez maior em diversos grupos sociais”, disse.

O professor explicou ser comum que governos alterem metodologias de mensuração da concentração de renda, construindo uma ideia de que a desigualdade social estaria menor. “A desigualdade no mundo reduziu nos últimos 40 anos, em números relativos. No entanto, isso está em contradição com os números absolutos. Então, quando se adota os índices relativos, a desigualdade está reduzindo. Já adotando os índices absolutos, ela está crescendo”, disse ao mostrar alguns gráficos relativos ao índice de GINI. Este índice é medido de zero a um; uma sociedade menos desigual tem seu índice de GINI mais próximo a zero.

O crescimento da desigualdade social em números absolutos é acompanhado pela concentração de renda. No mundo contemporâneo, há cada vez menos pessoas detendo mais riqueza. Segundo Schettino, o aumento da concentração de renda está ligado ao desenvolvimento e às inovações tecnológicas.

O docente explicou que a aferição do grau de desenvolvimento tecnológico de um determinado país pode ser feito pelo número de registros de patentes. E quando se olha para o registro de patentes, segundo o italiano, há duas questões que devem ser consideradas: o desenvolvimento de novas tecnologias, feito por cientistas e pesquisadores assalariados de grandes empresas; e a propriedade dessas inovações tecnológicas, cujo registro das patentes pertence a essas grandes empresas.

A partir de dados da Europa, Schettino destacou que atualmente há menos empresas proprietárias de um número maior de patentes. Quando esses dados são comparados com os índices de concentração de renda, de acordo com o professor, percebe-se um vínculo entre a concentração renda e o desenvolvimento de novas tecnologias. Dito de outro modo, segundo Schettino, a inovação tecnológica tem contribuído para o aumento da concentração de renda no mundo. Esse fato, segundo o docente, joga por terra o argumento de que o desenvolvimento das forças produtivas, por si só, seria capaz de reduzir desigualdades sociais.

Francesco Schettino também falou do mercado de patentes no mundo, em que Estados Unidos e Japão aparecem em primeiro lugar no ranking dos registros. Entretanto, após a crise mundial de 2008, o cenário começou a mudar. “A China tem investindo muito em inovação tecnológica, principalmente, em alta tecnologia de engenharia elétrica, porque entendeu que é fundamental para a competição”, disse.

De acordo com Osvaldo Coggiola, docente de História Contemporânea da Universidade de São Paulo, e que compôs a mesa, o número de patentes registradas no Brasil ainda é ínfimo, quando considerados o tamanho da sua população e de sua economia.

O 2º vice-presidente da Regional São Paulo do ANDES-SN ressaltou que medidas como o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação não resolvem a situação do país. Pelo contrário, trata-se de uma medida que coloca as instituições públicas numa perspectiva mercadológica e empresarial, alterando as relações de trabalho dos docentes. O professor destacou os embates do ANDES-SN contra o Marco Legal, ressaltando a importância da luta contra o capital. “Lutamos a favor de uma sociedade que os meios de produção sejam de propriedade social”, defendeu Coggiola.

Debates

O seminário segue pela tarde de quarta, com o debate sobre “Orçamento Público e Financiamento da Educação Superior”. À noite, o tema será: “Dívida Pública e Usura Financeira”. Já na quinta-feira (11) serão realizadas as mesas sobre “A Luta da Universidade Pública e da Classe Trabalhadora na Argentina e no Brasil”, “A Luta das Mulheres Trabalhadoras pelo Aborto Legal, Seguro e Gratuito” e “Decomposição e Recomposição da Classe Operária”. Ao todo, o Seminário Internacional do ANDES-SN terá seis mesas, divididas entre os dias 10 e 11 de abril.

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